O pobrismo e os cristãos.

Quem está certo o teólogo da libertação, ou o teólogo da prosperidade?
Como o título foi grande o capítulo pode ser pequenininho, né? Mas vai ser difícil com um tema destes. Segure as pontas que vamos embarcar em mais conceitos antropológicos. Detesto usar “palavrões” (acadêmicos, porque palavrões populares você já deve ter percebido que tenho franca simpatia por eles…) mas aqui tenho que falar de dois: contextualização e sincretismo. Por contextualização nós “missiólogos” (ai que chique!) entendemos o ato de adaptar um conceito para uma forma conhecida pelo povo, assim vestindo uma idéia nova com uma roupa velha se comunica melhor a idéia. Por exemplo quando celebramos a ceia do Senhor na Amazônia, ao invés de usar pão e vinho, usamos açaí e beiju de mandioca, ou água com pó natural de guaraná e macaxeira. Isto se chama contextualização. A ceia é a mesma, o conceito do sangue (alimento líquido) e da carne (alimento sólido) continuam presentes, mas a forma do símbolo mudou de pão e vinho para uma forma conhecida e tão familiar e cotidiana para o povo da região quanto o pão e vinho eram para o povo judeu da época de Jesus.
Experimente celebrar a ceia do Senhor usando outros elementos! Você vai ver o poder dos símbolos de um jeito diferente! Celebre com os jovens uma ceia com Coca-cola e batata frita, ou café com chocolate! Seu papo com Jesus vai ficar muito “irado” meu!! (“Irado” não no português do Português, mas no português da Tati é claro!) Se você se escandalizou ou acha que isto não é bíblico, mais uma pergunta: Quando Jesus falou, eis o meu corpo, e o meu sangue,  ele estava falando estava falando do pão e do vinho em si? Se é assim, então caímos na doutrina católica da transubstanciação… O que é transubstanciação? Ah meu tá querendo demais… Vai estudar, véio.
E o outro palavrão, sincretismo? Acho que já expliquei uma vez, mas aí vai de novo, é quando um conceito novo toma uma forma velha. Ué? Mas não é a mesma coisa que o outro palavrão? É. Tenho que admitir que é. Veja bem, nós os missiológos (desta vez não me parece tão chique assim, pareceu pedante pra caramba…) dizemos que não é a mesma coisa, porque fazemos um juízo de valor. Só chamamos de contextualização quando nós pensamos que a idéia adaptada era certa. Quando o povo mistura idéias do Cristianismo, novas para a cultura deles,  com suas formas estranhas e de difícil interpretação vira tudo um bololô e ficamos inseguros quanto ao resultado final. Será que aquilo é Cristianismo de verdade ou é um paganismo maquiado? Não sabemos. Então dizemos que é sincretismo.
O que é que isto tudo tem a ver com a pobreza e com o jeito que nós cristãos evangélicos lidamos com a pobreza? A Bíblia nos oferece um panorama de riqueza e pobreza que tem sido interpretado de muitas formas diferentes ao longo dos séculos. A própria igreja católica não conseguiu ser homogênea em torno deste conceito, por isto as ordens católicas tem abordagens às vezes radicalmente opostas umas às outras. Uns fazem voto de pobreza e usam roupões surrados amarrados com uma corda na cintura (estes não são muitos populares nos dias de hoje) outros vivem uma vida nababesca sustentada pela igreja. A Igreja Católica mesmo como instituição é riquíssima. Imagina quantas pracinhas só no Brasil tem Igrejas católicas no meio? Quantos colégios, quantas universidades…
Mas os protestantes também se confundem nesta questão. Calvino desenvolveu a teologia do lucro legítimo. Esta foi uma grande contribuição do protestantismo à cultura ocidental. Se fôssemos todos católicos ainda talvez eu não estivesse aqui hoje na frente deste computador num escritório com ar condicionado. Pode ser que eu nem soubesse ler e escrever, já que sou mulher e nasci de família classe média baixa. As idéias de Calvino foram a base do todo o desenvolvimento ocidental. A passividade provocada pela hierarquia de ferro da igreja católica não produziu a liberdade de gerar riquezas e bem estar para toda a população, mas o direito de permanecer rico para um grupo muito pequeno de pessoas que nasciam ricas.
Calvino legitimou o lucro,  e por consequência a escalada social, a mudança do status quo, a constante busca por mais e melhor que marca nosso mundo ocidental até hoje. Não quero entrar na discussão sobre a validade destas idéias, e cair no lugar comum ou de excecrar o capitalismo como vindo diretamente do coração do demo, ou de idolatrá-lo como único pilar sobre o qual uma “civilização” verdadeira deve se apoiar. Nada disto, nem Bush nem Fidel, ambos deixam a verdade na gaveta de suas escrivaninhas.
A Bíblia dignifica os pobres, atribuindo-lhes valor intrínseco mas os desafia também. A Bíblia exorta os poderosos a serem justos, e a terem na prática da justiça para seus companheiros um de seus maiores alvos, mas os permite enriquecer e os permite se alegra no prazer que as riquezas proporcionam. Parodoxal esta Bíblia, não? A mesma Bíblia que é mãe do Capitalismo se torna mãe do Comunismo. O mesmo gênio que estava sobre Calvino estava sobre Marx. Parece que não vai dar pra entender. Mas se a gente olhar pra Jesus consegue.
Jesus era “o cara” dos pobres, mas era também “o cara” dos ricos. Tanto faz pobre ou rico, seu negócio era gente. Condena os ricos pela indiferença e pela avareza, manda o jovem rico vender tudo, mas também não fica passando a mão da cabeça do pobre.

E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
4  Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
5  Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
6  Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
7  Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
8  Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
9  Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
10  Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;
11  Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.
12  Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.
Mateus 5:2-12

Toda a parodoxalidade da pobreza e da riqueza na Bíblia pode ser vista lindamente nesta passagem. O que importa é o que há dentro de nós. Mas não de uma maneira que nos deixe alienados, bocós esperando o porvir, um reino que não chega, nos prostrando vitimizados diante de um destino cruel incontrolável, ou como filhos de um rei na barriga, buscando a prosperidade comercial como um fim em si mesmo e absolutizado pela pseudo-benção de Deus.  O reino não é o porvir, e nem um home-theater. O reino é gente amando e sendo amada, gente sendo perdoada e misericordiesada, gente lutando pela justiça dos outros, na vida dos outros, no quintal dos outros como se fosse a sua própria justiça. Gente consolando os outros, construindo vida com seu governo que reflete os valores de Deus, sendo limpos e de coração puro, querendo Deus, mas sendo perseguidos no entanto, perdoando mas sofrendo calúnias, etc. Não importa a posição social, se escravo ou livre, se homem ou mulher, se temos os valores de Deus, ao nosso redor não haverá diferença de tratamento ou justiça entre escravos e livre, homens ou mulheres.

Tudo o mais é bobagem. É bobagem ficar se amargurando pela pobreza, é bobagem ficar se orgulhando na riqueza. Que Deus nos ajude. Me canso sempre quando leio artigos de pastores cheios de auto-justiça e amarguras contra o Bush o capitalismo, cheios de defesas para defender os pobres que, sinto muito, não precisam destes Fidéis de plantão bem confortáveis em seus salários altos e carros importados. Todos nós precisamos é de perdão.

Quando os católicos europeus da geração passada e retrasada  vieram à América se absurdizaram com a pobreza e as injustiças causadas pelo catolicismo em nossas terras incas e guaranis. Como aquela tchurma era suuper marxiana em seu pensamento e fora treinada para não agüentar a injustiça (o que claro, é muito bom) inventaram logo uma forma teológica de justificar a luta armada. Olha, vou dizer que simpatizo com eles muito mais do que com os engravatados em Armanis da 25 de Março  que pregam a prosperidade. Minha idéia mais romântica de serviço a Deus é uma freira da teologia da libertação,  bem bonita,  e pura, (mas com uma quedinha platônica pelo líder do movimento guerrilheiro, claro)  com dois cinturões de bala cruzados no peito a lutar com os pobres e pelos pobres nas montanhas da Colômbia ou do México, aliás o México é bem melhor porque lá não tem droga.

Então (poxa parece que não chego no assunto nunca!) estes teólogos liberais estavam sincretizando o evangelho com o marxismo-maoísta, ou encontraram uma solução teológica legítima para o sofrimento que encontraram aqui? Seria sincretismo ou contextualização o que aconteceu? Nós evangélicos desprezamos estas soluções e importamos o conceitos teológico enlatado americano que nos diz que  os tiranos, mesmo os piores deles (Noriega, Fidel, e Cia LTDA) devem ser respeitados porque estão no poder. Daí a passividade criminosa que os protestantes adotaram diante da ditadura, daí a conivência com o regime militar no Brasil.

É sincretismo ou contextualização a teologia da prosperidade?  Os pregadores desta teologia dizem que o crente tem direitos. Não é novo isto, o mundo hoje, a mídia, tudo nos diz que temos direitos. A pregação de um sujeito assim não é diferente em contéudo do que nos diz a Darlene da novela de Gilberto Braga: Celebridades, na sua busca incansável por fama e riqueza. “Pela fama faço tudo!!”

Ambas teologias distorcem o evangelho em sua essência. Jesus não nos permite odiar, e não nos permite amar demais o nossa vida na terra, ou os próprias direitos que ele mesmo nos dá. Porém ambas teologias contém verdades importantes. Jesus nos pede que sejamos amantes da justiça e a luta idealista pela justiça pode nos levar à morte em alguns locais. E ele nos quer dar o seu amor de pai, e nos cuidar como filhos amados, quando nos conscientizamos deste amor usufruímos do que ele nos deu com alegria e até somos capazes de pedir um pouco mais.
O pobre brasileiro é que está certo. Amamos a vida, ainda que seja numa macorranada e numa cervejinha  de fim de semana, num colarinho bem lavado, apesar de puído na camisa social do culto de domingo. Na goiabada com queijo que se come depois do almoço na casinha de mobílias sóbrias da vovó.

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Garra para vencer sem honra

Esta coisa da esperança intrínseca pode ser lida em inúmeras artes brasileiras e principalmente na música. Como disse mais atrás a música de um povo é uma janela para se enxergar sua alma. Temos uma alma individual e uma alma em comum com todos que compartilham nossa cultura, falam nossa mesma língua, cresceram embalados pelos mesmo cânticos, ou pela mesma falta deles. E nesta aventura de se decifrar a alma coletiva da cultura os poetas e músicos são campeões. Leitores de alma, profetas, raios-xs de nosso íntimo, quando eles cantam desnudam nossas alegrias, desejos e misérias.

 

Isto não exclui os poetas não crentes. Pelo contrário, no mundo cristão falamos de nossas orações, louvamos e cantamos a salvação. Mas pouco falamos de angústias, pouco nos deciframos em nossa complexidade psico-cultural. Santidade? Mandamento bíblico? Creio que não. Veja os salmos de Davi por exemplo. Nossa falta de profundidade é produto do vício de uma cultura evangélica imediatista, umbiguista e aleijada culturalmente. Para conhecermos nossa alma brasileira temos que recorrer a outro músicos que geniais, não foram podados em sua capacidade de profetas do eu-social brasileiro.

 

Quem nasceu na década de 60 ou até 70 se lembra ainda da música dos monstros sagrados Chico e Caetano, da voz que abrange o mundo de Milton Nascimento, de Belchior e de seu estilo inusitado, na época que a MPB pensava ainda com a cabeça e com a alma não com o traseiro.

 

Tem alguma coisa na expressão musical de um povo que é como se fosse uma janela especial para a alma humana, para sua alma social inconsciente. Uma espécie de expressão do “inconsciente coletivo”, uma representação melódica que está presente nos sonhos esperanças e desilusões do povo… Que mulher que nunca se sentiu “denunciada” ao ouvir as músicas de Chico Buarque, que quando canta as entranhas femininas, nos conhece melhor que nós mesmas? Ou hoje em dia quem não se comove com as denúncias de Chico César em “Mama África”, ou as de Carlinhos Brown em “Segue o Seco”?

 

Muitas músicas maravilhosas e reveladoras me vieram à mente quando orava para escrever este livro. Algumas sedutoras e tristes, outras cirúrgicas precisas me prescrutando a alma, me diagnosticando sem pudores e sem máscaras. A música de Belchior “Sou apenas um rapaz Latino Americano” é uma destas. Traz consigo uma das melhores definições que já vi da alma brasileira, da auto-imagem do rapaz Brasil. Quem somos? Estamos à procura de saber; mas enquanto não nos encontramos é assim que nos vemos:

 

“Eu sou apenas um rapaz latino americano,
sem dinheiro no bolso,
sem parentes importantes e vindo do interior…
Mas trago de cabeça uma canção do rádio
onde um antigo compositor baiano me dizia:
tudo é divino, tudo é maravilhoso…”

 


Somos um país jovem. Não temos tradições milenares como a China, Grécia, Itália ou até países latinos como o Peru e o México. Nosso passado não vai além dos 500 anos, num sinal claro de que a colonização européia aqui literalmente matou qualquer passado que pudéssemos ter, como aconteceu com os Estados Unidos.

 

Inseridos no meio de um continente pobre e contraditório na verdade hesitamos um pouco para nos sentir parte dele. Não falamos espanhol como “eles” e nem temos uma gritante herança indígena como “eles”. Os poucos de nós que trazem na pele e no rosto esta herança, tentam encobrí-la numa máscara de auto-negação. Mas não há como não se render ao fato de que somos latino-americanos, mesmo que a contra-gosto.

 

Nós brasileiros pobres trabalhadores não temos mesmo dinheiro nunca, ou nunca temos o suficiente. O que às vezes nos valoriza é quem conhecemos ou de quem somos aparentados. Buscamos desesperadamente um valor que não cremos pertencer inerentemente a nós, nos relacionamentos com gente que cremos sim ter algum valor… Daí a cultura do apadrinhamento, do pistolão, do “fidalgo”, ou filho de algo.

 

Além de tudo carregamos nossa condição provinciana em relação ao nosso próprio progresso e em relação ao mundo. Estamos sempre extasiados diante do novo, maravilhados com um bichinho virtual, com um modismo de praia, com carrões importados, os “Roland Garros” de Guga, o namoro de Gisele Bündchen com Leonardo de Caprio, a aparição relâmpago do Rodrigo Santoro no estúpido filme das Panteras, como se estes “píncaros de sofisticação globalizada” pudessem nos redimir de nossa latinidade. Ser provinciano faz parte de nosso comportamento mais previsível. Como já disse Fernando Henrique Cardoso: – “o brasileiro é um caipira”, num comentário auto-crítico recebido como um xingamento pela mídia brasileira. Pura bobagem. Saber-se caipira é um reconhecimento natural da nossa condição.

 

Mas com todas estas contradições, apesar deste desvalor contraditório ainda temos uma esperança lá dentro. Esperança em quê? Como a música do rádio, um dia bonito nos faz otimistas, uma eleição, um “impeachment”, um lula, ou três fernandos, um bilhete de loteria, um penta, um penâlti. Estamos certos de que tudo é divino, tudo é maravilhoso… Agora que nosso torneiro mecânico chegou lá, e desfila com a desenvoltura característica de nós caipiras pelos congressos internacionais que pretendem salvar o mundo, temos mais esperança ainda. O Fernando, era mulato, mas mulato estudado. Agora temos um autêntico representante de nossa caboquisse criativa e verborrágica no planalto.

 

O Milton com sua Maria Maria nos traz uma pintura expressionista desta nossa força esperança. A mulher Maria na voz de Elis, é a mulher luta, a mulher-mãe que vive à custa de esperança somente, à míngua de qualquer outra emoção, é vida e morte, alegria e tristeza, santa e prostituta de uma vida de dor transformada em alegria, de pranto e música de fé e luta amarga, fé e fel.

 

Maria, Maria é um dom é uma certa magia,
É uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer no planeta…
Maria Maria é um som, é a cor, é o suor
Uma dose mais forte e lenta,
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive apenas agüenta.
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre…
Quem traz no corpo esta marca Maria Maria
Mistura a dor e a alegria.
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele esta marca
Possui a estranha mania de ter fé na vida…

 


Podemos ver em nós a gente do Maria Maria, da força que nos alerta, o povo da marca que nos transmite a estranha mania de ter fé na vida. Nossa alma brasileira no fundo é feminina, a alma de todas as mulheres e homens que geraram o país que somos.

 

Talvez não seja tão fácil concordar com esta declaração. O que faz um país ter uma alma masculina ou feminina? Não sei, mas tenho assim aquele sentimento que é quase impossível de ser posto em palavras, que me diz, os homens que me desculpem, do nosso cheiro almífero de mulher. Alguma coisa na atitude. Parece que somos uma donzela esperando ser resgatada por um benfeitor de além mar. Ora este benfeitor é o FMI, ora é o mercado comum europeu, o capital estrangeiro a ser investido em nossas terras, ora é modernidade que toma ares de entidade quando citada por nossos economistas. Nossa política interna e externa é uma política de mulher lesada, daquela que se dedicou anos a um marido infiel e por fim foi deixada por ele. Parece que estamos sempre buscando o que “nos é devido”. É atitude de país colonizado, lesado sim desde a sua concepção, mas que teimosamente, amargamente, e inconscientemente, mantém esta ferida em si, ainda quinhentos anos depois. Somos femininos também em nosso romantismo, nossa certeza ilusória de que um dia “daremos certo”, e principalmente na nossa passividade em relação à esta certeza.

 

Isto é o Brasil, isto somos nós, pobres mas esperançosos, pessimistas mas otimistas, numa eterna busca de algo que talvez sabemos no fundo que não vamos achar: Como o Chico canta em Pedro Pedreiro:


“Pedro não sabe mas talvez no fundo,
espere alguma coisa mais linda que o mundo,
maior do que o mal, mas pra que sonhar.…”

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Por que o brasileiro gosta tanto de títulos?

Quando o conceito de pessoa é o centro, a idéia de qualquer papel social está sempre ligada à idéia de posição e não de mera função. Deixe-me novamente parar para explicar que biblicamente, o exercício da liderança, ou do ensino, ou do pastorado não tem nada a ver com posição.Aliás nem existe biblicamente a “posição de liderança”. Existe a função de liderança. A idéia de posição está ligada com a idéia de pessoa, enquanto a Deus nos vê e nos trata na maioria das vezes como indivíduos. Digo maioria porque às vezes eles nos exorta a nos arrependermos dos nossos pecados sociais, neste caso temos que nos enxergar dentro do contexto social, como pessoas que somos. A idéia de pessoa presume uma hierarquia, um debaixo do outro, e com isto presume valores diferentes, estratificação. Assim, ó:

 

Líder
Sub-líder
Alguém-chegado-do-líder
Pobre-coitado zé ninguém

 

Como nos vemos como pessoas, estamos sempre nos vendo como alguém em relação a. Sou alguém ou ninguém em relação a quem eu conheço, quem eu lidero, o que eu faço como profissão que me dá status. Este pensamento é doente e pecaminoso. Não somos alguém ou ninguém, somos sempre alguém aos olhos de Deus. Ele não nos atribui menor ou maior valor de acordo com o que fazemos ou deixamos de fazer, ou com função que exercemos. Temos o mesmo valor diante dele, sejamos líderes ou liderados, pastores de uma grande igreja, ou membros da igreja. Não há hierarquia na liderança cristã. Existe liderança sim e existem diferenças de funções, mas não existe hierarquia, posição.

 

A Bíblia nos mostra Deus nos tratando como indivíduos. Ele olha para nós primariamente como seres naturais, e não como seres sociais. Por sermos indivíduos aos seus olhos Ele nos cobra posturas diferenciadas do que está ocorrendo ao nosso redor, com nossa família, como fez com Abrão, com Moisés, com Davi, com Isaías, com Jeremias e tantos outros. Não só isto mas outras declarações do Novo Testamento nos mostram que Deus nos vê numa esfera supra-social, não impedidos, ou ajudados por qualquer definição social que queira nos aprisionar.

 

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.”
Galátas 3:28

 


O líder não se encontra numa posição superior ao liderado nem em relação à sociedade nem em relação a Deus. Principalmente esta função não tem nada a ver com privilégios em relação a Deus. Se pensarmos assim temos que concordar com o sistema do papado, e admitir que algumas pessoas são o oráculo inquestionável de Deus na terra. Podemos falar por Deus, levar a palavra dele, mas ainda somos humanos. Nada nos eleva a condição de líderes inquestionáveis ou irrepreensíveis. Por mais espirituais que nos tornemos vamos sempre carregar conosco a condição humana limitada, e esta compreensão deve ter o poder de nos tornar humildes sempre diante de Deus e uns dos outros.

 

Infelizmente nossa igreja evangélica não revisou este conceitos. A maioria de nossa expressão de liderança reflete nossas origens católicas. Cremos na autoridade espiritual do mesmo jeito que os bandeirantes criam na autoridade do líder da bandeira. O líder, imbuído de uma “posição” na igreja passa a ter uma prerrogativa de papa sobre a vida dos fiéis. Passa a ser inerrável, irrepreensível oráculo. Afinal ele é o líder espiritual, o pastor, o líder da célula, ou o “discipulador” do outro irmão. Neste contexto nossa vida com Deus passa a ter outro intermediário entre Deus e nós além de Jesus, vivemos como bebês dependentes de um pai ou de uma mãe espiritual.
Haverá base bíblica para tal entendimento? De acordo com a Palavra de Deus não temos que ser bebês espirituais a vida toda. É verdade que um bebê precisa da mão de um pai ou de uma mãe humanos. Mas o plano de Deus para nós não é que vivamos como bebês a vida toda. Temos que crescer.
“Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento.”
Hebreus 5:12


O escritor de Hebreus neste texto exorta o pessoal a crescer. Quer vergonha, que criacisse vocês ficam toda vida no leite quando já poderiam estar sendo pais e mães de outros. Porque ficamos estacionados. A única razão possível para pararmos de crescer no entendimento é pararmos de nos relacionarmos com Deus. Ficamos mestres em receber apenas o mantimento mastigado e pobre, o suficiente para nos mantermos vivos, mas não queremos o confronto, o esforço da mastigação, o esforço de um relacionamento pessoal com Deus.

 

Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo; 3 Se é que já provastes que o Senhor é benigno; 4 ¶ E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.”
I Pedro 2:2-5

 


Nossa função quando maduros, segundo Pedro é sermos sacerdotes. Este conceito de um grupo de sacerdotes espirituais de mesmo nível na fé, acaba com a idéia do clero. O clero somos todos nós. Na cultura brasileira quando cometemos o erro conceitual de nos ver como pessoas e não como indivíduos vivemos debaixo do estigma da estratificação. Para a pessoa há diferença hirárquica, diferença de nível entre um irmão e outro. No entanto irmão do “clero espiritual” (seja ele um pastor, um discipulador, um pregador importante, um avivalista ungido) é uma indivíduo que na hirarquia de Deus não se encontra numa posição espiritualmente superior. Ele é igual a todos os outros, não tem mais privilégios que os outros diante de Deus, todos temos igual acesso à sua graça… Ele também não tem nenhum direito outorgado por Deus para ouvir a vontade de Deus para a vida de qualquer pessoa a não ser para ele mesmo. É verdade que ele possa ter conselhos, discernimentos, e visão. Mas ainda assim quem tem que tomar a decisão, quem deve saber ouvir por si mesmo, tendo neste escutar constante a prova principal de seu relacionamento com Deus, é o Zé ninguém, o novo crente, o jovem, a criança..

 

.
Não é maravilhosa esta realidade? Todos nós temos igual acesso á sua graça…

 

“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. 27 Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. 28 Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.29 E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.
1 ¶ Digo, pois, que todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo; 2 Mas está debaixo de tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai. 3 Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo. 4 Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, 5 Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. 6 E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. 7 Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo.
8 ¶ Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses.
Gálatas3:26-29, 4:1-8

 


Será que estas palavras poderosas da escrituras são capazes de nos limpar a mente nos livrando para sempre deste complexo de pessoas, e nos tornar indivíduos reais na presença dele? Espero que sim. O fato é que ele nos atribui valor inerente. Ainda que nossa cultura nos diga que adquirirmos valor através de beleza física, dinheiro, posição social ou até função espiritual dentro da igreja, a Palavra dele nos diz que somos todos iguais e não importa o que fizermos não vamos adquirir e nem perder o valor que temos para Ele. Somo todos filhos, herdeiros preciosos.

 

A saúde social que um conceito certo sobre liderança traz é enorme. Num ambiente onde os líderes entendem que são servos do bem comum e não algum filhote-de-messias-iluminado existe respeito entre as pessoas, existe liberdade e existe crescimento.

 

Num ambiente assim títulos não são necessários, pelo contrário se tornam um emblema ridículo e vazio. O brasileiro gosta de títulos quando ele vive de acordo com o sistema social da pessoa e não do indivíduo. Uma pessoa precisa de uma aprovação de um valor atribuído a ele pela sociedade à parte do que ele já se sabe e se conhece. Ele precisa se provar para os outros. O indivíduo que já recebeu um banho mental de valor, que recebeu de Deus a atribuição principal de seu valor pessoal não precisa provar nada para ninguém.

 

Uma vez eu estava num culto dirigido por alguns apóstolos, destes que se entitulam apóstolos da igreja neo-pentecostal brasileira. Me deu tristeza ver tanta pompa e circunstância que poderia ter sido direcionada para Deus para o ensino honesto e despretencioso da Palavra, ser usada para glorificação de homens. Alguns deles que creio serem pessoas sinceras, ainda que envolvidas por esta cultura do personalismo, se batiam para se acostumar com a titulação: “Fulana, opa, quero dizer apóstola, me desculpe gente entre nós a gente se chama pelo nome…” Adoeci com esta balela. Entre eles são de igual nível, só se diferenciam de nós vis mortais não agraciados por Deus por títulos de nobreza… Me deu dó, ver líderes cristãos, tão distanciados da verdadeira humildade de Cristo…

 

Será que você depois de ler isto vai estar mais consciente do seu valor? Jesus morreu por você, intercede por você, se alegra em você, quer ouvir seu louvor, suas orações, suas declarações capengas de amor…

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O individualismo doente da América Católica

Vamos então rever nossas raízes ibéricas, e nossa cultura brasileira no que diz respeito a idéia de autoridade, liderança e governo. Estaria certo o Caetano Veloso quando cantou:

 

Será que será, que será, que será,que nunca faremos senão confirmara incompetência da América Católica que sempre precisará de ridículos tiranos?”
Podres Poderes – Caetano Veloso



Nosso povo na sua origem é individualista. Disse o Sérgio Buarque de Holanda (que familinha sabida, hein?) citando muitos historiadores antigos que os portugueses e espanhóis podem ser considerados os verdadeiros precurssores do individualismo moderno.

“nenhum destes vizinhos (países vizinhos) soube desenvolver a tal extremo essa cultura da personalidade que parece constituir o traço mais decisivo na evolução da gente hispânica, desde tempos imemoriais. Pode dizer-se realmente que pela importância particular que atribuem ao valor próprio da pessoa humana, à autonomia de cada um dos homens em relação aos seus semelhantes no tempo e no espaço, devem os portugueses muito de sua originalidade nacional… Cada qual é filho de si mesmo, de seus esforço próprio, de suas virtudes…



O produto social esperado de um espírito assim tão exacerbadamente individualista é a anarquia. Um povo que não se vê como povo dificilmente vai poder ter governo, ou vai ter compromisso social, compromisso com o todo. Continua o Sérgio:

Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente com a cumplicidade ou a indolência displicente das instituições e costumes. As iniciativas, mesmo quando se quiseram construtivas, foram continuamente no sentido de separar os homens e não de os unir. Os decretos dos governos nasceram em primeiro lugar da nescessidade de se conterem e de se refrearem as paixões particulares e momentâneas…”



Ou seja o trabalho do governo instituído era um trabalho de freio de cavalo chucro e não de gerenciamento e normatização de um “corpo” unido. Assim eram os íberos e assim parece que continuamos sendo nós. Daí explica-se o nosso desapêgo à pátria mãe. Não temos necessidade de nos reportarmos à um todo comum para conquistarmos nossa identidade. Nossa glória não é o todo, mas o eu; os feitos e prestígio individuais. Nisto nos opomos radicalmente aos americanos que não são nem só uma pátria, mas um verdadeiro time, coeso em torno de sua estratégia única de vitória.

Nós não sabemos trabalhar em equipe, não somos capazes de extrair do sucesso do todo nosso senso de realização pessoal. Estamos fadados à escravidão de nossos limites pessoais. (A não ser que Deus nos cure da doença do individualismo é claro…) Quando viajamos ao exterior, procuramos não ser brasileiros em viajem. Somos os “cidadãos do mundo”, cosmopolitas e sofisticados, vesrtido de couro, tweed, jeans e cáqui, ou só os Zés da Silva. Às vezes até se faz necessária uma identificação do tipo, “sou brasileiro mas não como eles…” quando nos encontramos diante do preconceito causado por alguma sujeira deixada por nossos concidadãos…

De certa forma, sabemos que nossa cidadania termina aqui e que é difícil contar com esta pátria quando nos arredamos um centímetro para além dela… Um amigo meu, pastor, se viu em dificuldades na África quando visitava um grupo de missionários que trabalhavam debaixo de seu ministério. Uma guerra civil explodiu durante os dias em que ele estava ali, e ele precisou da ajuda da embaixada brasileira para tirar os missionários brasileiros, heróis, voluntários da fome naquele inferno remoto e que estavam ali na eminência de serem mortos. Conseguiu? Não. O cônsul e seus funcionários estavam preocupados em se livrar da situação e simplesmente lhes voltaram as costas. Mentiram se esconderam, e livraram a própria pele numa retirada estratégica. O pastor e os missionários recorreram então à embaixada americana e encontraram ajuda humanitária e desinteressada. Te dá vergonha? Pois é, a mim também.
Como esta sociedade individualista trabalha com esta realidade para tentar criar o mínimo de coesão necessária para funcionar? Ou como legitimar a noção de liderança ou governo? A única alternativa possível seria a renúncia a este personalismo…

“À autarquia do indivíduo, à exaltação extrema da personalidade, … só pode haver uma alternativa: a renúncia a essa mesma personalidade em vista de um bem maior. Por isso mesmo que rara e difícil a obediência aparece para os povos ibéricos como virtude suprema entre todas… essa obediência, obediência cega, tem sido até agora o único princípio político verdadeiramente forte…”



O ser humano é assim. A cada pecado, a cada orgulho corresponde uma virtude. A virtude ou a idéia oposta ao individualismo é a renúncia do eu para o bem do todo, ou como explica tão Sérgio Buarque, – a obediência cega… Para nós tem sido esta virtude também uma virtude essencial desde nossos primórdios. Vemos isto nas bandeiras, organizadas por uma hierarquia tirânica e intolerante, vemos nas missões jesuítas que também dependiam de uma relação desigual entre os índios e os padres, vemos este mesmo modelo repetido hoje até nas igrejas evangélicas, e na noção de autoridade que muitos cristãos alimentam puros e felizes achando que estão vivendo a noção de autoridade bíblica… Repetimos nossos vícios culturais e portanto repetiremos o passado, ainda que de uma maneira mais “cristã”.

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O pecado mora ao lado, ou na cultura?

Como não podemos viver um Cristianismo flutuante, todos os conceitos cristãos sejam idéias essenciais, sejam sistemas, sejam virtudes e valores, repousam sobre as idéias, virtudes e valores de nossa cultura. Tudo é filtrado através do tecido sócio-cultural brasileiro para então tomar a forma humana, sua forma de igreja que é a igreja vestida de sociedade brasileira.
Muito tem sido escrito sobre o transporte transcultural do evangelho. Muito se discute sobre o que se pode ou não implantar numa igreja nova e transcultural. É ponto pacífico entre os missiológos, pelo menos a idéia de que existe uma diferença entre os povos na sua maneira de hierarquizar seu sistema de valores morais. Não que a essência do que é pecado seja diferente. Para algumas culturas como a nossa por exemplo, pecados sexuais são os mais graves de todos. Se um pastor comete adultério é imediatamente proscrito, ele pode ser avarento, malediscente, mas não adúltero. Outros povos não têm pecados sexuais em tão alta conta. Se preocupam mais com a generosidade. Um pastor neste caso pode ser adúltero (este pode aí diz respeito a tolerância, não é que ele pode mesmo, é que se tiver de pecar, que peque em algo menor porque obterá mais tolerância, deu pra entender?), mas nunca faltar com generosidade.
O conceito de propriedade num outro exemplo, muda de cultura para cultura, e o que é considerado roubo ou não depende desta noção. Na nossa cultura por exemplo propriedade é tudo o que é seu não importa onde esteja. Em algumas culturas indígenas seu é tudo o que está dentro dos limites de sua maloca o que está fora é público. Portanto para eles não seria roubo “pegar” algo que você deixou à noite no terreiro de sua casa. A importância da noção de propriedade no funcionamento social também vai afetar o grau de “maldade” atribuído ao conceito de roubo, ou a gravidade do “não furtarás” na estrutura moral daquela sociedade.
A idéia de virtude funciona assim também, mas no sentido inverso. O valor de uma ou outra área da santidade é diretamente proporcional à hierarquia daquele pecado ou virtude na escala moral da cultura em questão.
Entendam-me, não estou dizendo que o pecado é relativo. O que é relativa é a importância que atribuímos a um ou outro tipo de pecado. Um pastor americano pode passar sua vida pregando à uma congregação brasileira sobre a importância de ser pontual nos cultos mas achar no fim que a mensagem não entra nos duros corações do brasileiros. Por que não entra? Será que quando uma pessoa chega atrasada num culto ela está intencionalmente desrespeitando o pastor? De jeito nenhum. A noção cultural de hora certa para um brasileiro tem pelo menos quinze minutos a mais de diferença do que a noção americana. Um brasileiro chegando às 7:15 para um compromisso marcado para as 7:00 está super-dentro da hora certa!
Quando a contextualização da moralidade não ocorre, a pregação se torna vazia, e a virtude que é exaltada pela pregação, quando derivada de valores não importantes pode passar desapercebida ou até mesmo ter o efeito contrário de aumentar problemas existentes ao invés de trazer uma resposta que funcionaria como um remédio para a ferida social.

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Comandante, capitão, tio, brother, camarada…

O brasileiro e a inserção social

Meu pai era  como este cara da música do Skank que chama todo mundo de chefe, o motorista de taxi, o garçom, o pedreiro lá de casa, que arrastou o término da obra por anos à fio. Mineiro é assim, cordato, humilde nas palavras. Mas tudo isto é só da boca para fora.

A relação do brasileiro com autoridade é complicada. Parecemos legais, desgrilados, mas estamos na verdade sempre sob pressão e alimentamos  um sentimento intenso de desconfiança, de  estarmos sendo abusados pela liderança da igreja, pelo governo, pelos políticos, mesmo quando não estamos. Conservamos uma espécie de ferida oficial na alma que nos deixa nesta condição. Temos um grande amigo,  pessoa em quem confiamos e no momento em que ele recebe alguma “posição” de liderança, pronto, a relação azeda. Qualquer líder é sempre olhado com desconfiança como se fosse um transgressor em potencial. Alguém comum se torna um líder e lá está ele a falar diferente, a empinar o bumbum, a lançar olhares de peixe morto aos “vis mortais” e a sentir na obrigação de dizer coisas que supostamente deveriam ser sábias.

O que é isto? O que é que faz que nossa visão de autoridade e liderança seja tão complicada? Por que esta predisposição negativa e por que esta arrogância e sentimento de superioridade ligados à função de liderança?

Aprendi alguns princípios sobre o modelo de liderança de Jesus e a diferença entre este modelo e modelo mundano. O modelo de Jesus é chamado de tranformacional pelo Dr. Tom Bloomer da Universidade das Nações e o modelo mundano de transacional. O transacional como o nome já diz está baseada em transações, negócios, uma relação toma lá dá cá, de medo, de egoísmo, dou lealdade porque vou receber isto ou aquilo em troca, ou para não receber esta ou aquela punição. O modelo de Jesus é baseado em transformação de caráter e serviço. Pede inclusão, respeito, trabalho ombro a ombro, igualdade.

Quer saber algumas características do modelo transformacional e do transacional? Vamos lá: (Palestra dada por Tom Bloomer no U of N Workshop, Colorado Springs, Setembro 1999.)

Há dois tipos diferentes de líderes [termos usados pelos psicólogos James McGregor/Burns].
1. Liderança Transacional (do Grego: dunamis)
a.    Fundamentado no poder/força.
b.    Trabalha através de coerção.
c.    O líder te diz o que deve fazer.
d.    Modelo: o líder é como um engenheiro numa fábrica.
e.    Os líderes vêem sua organização como uma máquina.
f.    Todos os trabalhadores têm uma parte para atuar e um trabalho para fazer naquela máquina.
g.    O relacionamento entre o trabalhador e o líder é baseado em conceções entre eles. O líder diz: “venha para esse trabalho pra nos servir e lhe daremos algo de volta.” Há dinheiro envolvido, mas também pode haver segurança e um lugar reconhecido na sociedade . Um contrato é criado para que todos entendam qual é o seu trabalho.
h.    Estilo de liderança autoritário.
i.    Praticamente universal ao longo dos séculos 19 e 20.
2. Liderança Transformacional (do Grego: exousia)
•    Baseado na autoridade do líder. Quando Jesus ascendeu aos céus, Ele disse que nos daria autoridade, não poder.
•    “Autoridade” e “poder” são muitas vezes confundidos em traduções diferentes da Bíblia.
j.    Age através de influência, uma visão que congrega as pessoas
•    Um líder transformacional não diz as pessoas o que fazer:
•    ii. Divulga sua visão-uma visão do futuro que os outros quererão seguir.
•    iii. Desafia-nos com um chamado
•    iv. Dá-nos certos valores; não apenas sobre o trabalho, mas também acerca da realização de algo juntos
•    Fundamentado na transformação de cada trabalhador, não em um contrato.
•    O líder convida as pessoas para trabalhararem com ele/ela.
•    Não autoritário, mas liberador.
•    Muitos negócios construídos sob este modelo.

Depois de ensinar sobre isto para um grupo de alunos brasileiros, de repente percebi que seria impossível aplicar o modelo transformacional na nossa cultura sem entender uma serie de questões que envolvem nosso  conceito cultural de liderança. Ao invés de serem libertos pela Verdade que vem destas palavras, os que exerciam liderança, e me ouviam, se sentiam oprimidos por uma utopia inalcançável e os que não exerciam se sentiam munidos de mais ferramentas ainda para cobrar e se ressentir contra seus líderes. O que é que está errado? Percebi que existe algo na base de nossa visão de mundo que não nos permitem entender e incorporar estes conceitos bíblicos de maneira sadia.

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Onde canta galo não canta galinha -

A pressão e opressão sobre o homem brasileiro

Uma vez sentada num culto no Rio de Janeiro passei por outra situação difícil. Eu tinha acabado de chegar de uma viagem de pelo menos 6 horas de avião da Amazônia ao Rio de Janeiro Maravilhoso. Na mesma manhã estava em casa feliz, escrevendo um texto, e meu marido me ligou:  “Venha me encontrar no Rio, temos uma reunião importante aqui.” Em uma hora eu estava no avião. (Tá vendo sou suuuper submissa- opa, agora não é hora destes risos, platéia…)  Minha roupa estava amarrotada e meu cabelo um tanto desgrenhado, não deu pra me arrumar depois da chegada. Quem dirigia o culto era a cantora Baby do Brasil. Lá estava pregando meu marido, entre muitas outras pregações e testemunhos porque o culto ali vai até as duas da manhã.

Ele começou a falar de sua vida e testemunho com seu bom humor peculiar. Quando falou do casamento, achou por bem falar de santidade para aquele grupo de espectadores sui-generis juntado ali mais pelo carisma da cantora Baby do que por outra coisa. Mulheres descasadas, homens de rostos macilentos marcados pela devassidão e pelo álcool, jovens no ápice de seus hormônios e na mais perfeita forma (e tatuagens) física. Reinaldo começou a falar sobre fidelidade, de como em vinte anos de casamento tinha sido fiel a mim, de como tinha controlado o sexo, mantido a pureza, apesar de ter tido uma vida devassa na juventude. Falou de como seguir a Deus e se guardar era muito melhor do que seguir os padrões mundanos de vida, e coisa e tal.

Era uma pregação poderosa e apropriada. No entanto soou aos meus ouvidos como javanês. Eu tinha certeza de que ninguém ali estava entendendo o que ele queria dizer muito menos os homens. Já os imaginei pensando nele como um pobre coitado, insatisfeito sexualmente, ou até quem sabe, homossexual. Imaginei que eles olhariam para mim com olhares clínicos de caça-modelos da Ford-Elite, e que iriam me reprovar em absolutamente todos os quesitos. Me encolhia na cadeira arrependida de ter tomado o avião naquela manhã, arrependida da roupa que escolhi vestir, do cabelo que eu não tinha arrumado adequadamente.

Não sou uma mulher insegura, e a minha própria reação me surpreendeu naquele dia. O que era aquilo? Porquê esta onda repentina de insegurança? O discurso dele que deveria me deixar orgulhosa, me sentindo respeitada e feliz, me deixou em pânico. Foi na dissecação de meus sentimentos naquele dia que descobri que eu mesma no fundo era machista.A sensação de inadequação que senti naquela hora brotou de um conceitinho sem-vergonha tão enraizado no meu sub-consciente que nem eu mesma sabia que ele estava ali.

Todo homem é por natureza um promíscuo. Os homens foram criados para procriar em grande escala, para reproduzir, por isto para eles o sexo é tão mecânico, e sua indentidade masculina está intrínsecamente ligada ao número de mulheres que eles tiveram ao longo de suas vidas. Ele é mais homem na proporção em que transa com mais mulheres. Certo? Errado. Meu marido não pensa assim. Mas eu descobri que eu pensava!! De repente não me senti digna do compromisso e da fidelidade dele, por não ter o traseiro da Sheila Melo ou os seios da Gisele Bündchen, ou por não ser duas…

O homem na nossa cultura nasce com valor intrínseco. Ele é menino-homem, machinho, saquinho roxo. O seu pai vai ter continuidade na sua linhagem, amarrem suas cabras que meu bode está solto. Quando ele nasce a felicidade é enorme. A mãe sabe que parindo um homem de certa forma fecha o círculo, homem-nascido-de-mulher, ela domina sobre seu dominador, possui sem ser possuída, marca ao mundo ao invés de ser marcada por ele. O homem sabe que um filho é sua esperança de eternidade, a continuação de seus sonhos, a realização de seus anseios mais ocultos. O garoto vai possuir por ele as mulheres que ele deixou de possuir, vai ganhar o dinheiro que ele não conseguiu, quem sabe obter o respeito e a aprovação social que o pai buscou, ou limpar as manchas que o pai deixou. Vai ser um jogador de futebol ou um cantor de pagode, vai aproveitar tudo o que não pude, mas na verdade vai é tristemente repetir meus erros e perpetuar as maldições que pesam sobre mim.

As expectativas dos dois lados são grandes, porque ali, no homem, nasceu um ser humano de verdade.
Quando a mulher nasce é diferente. Nasceu mulher, cuidado aqui mulher não casa, cai na vida cedo, vou ter dor de cabeça, netos dentro de casa, minha donzela, será que ela vai prestar? A mãe pensa que pelo menos vai ter quem ajude no fogão daqui a alguns anos e o pai pensa naquela boca a mais para encher de farinha. Alguns até ficam felizes porque bananeira-que-eu-plantei-eu mesmo-colho-o-cacho, ou seja, é mais uma mulher nascida para servir sexualmente o pai, e ele é quem tem o direito de lhe tirar a virgindade. E assim se fecha o círculo de desrespeito e abuso produzido pelo machismo de nossa cultura.
Sempre me considerei uma mulher moderna, emancipada, cônscia de meu valor. Mas ao ouvir a declaração pública de fidelidade de meu marido, vi que não passava de uma bailarina do Tchan, conceitualmente falando. Ali estava eu me sentindo meio-mulher porque tinha me casado com um meio-homem.

Será que estas idéias sobre a promiscuidade masculina intrínseca são universais? Sem querer descanbar aqui para um manual de auto-ajuda ou uma espécie de artigo da revista Marie Claire sobre a traição, queria dizer que não estas idéias não são universais. Homem não é igual a infidelidade em todas as culturas do mundo. Assisto os filmes americanos e descubro que família, filhos, compromisso, fidelidade para eles é sinônimo do ideal máximo de felicidade. Quando se ama não se tem necessidade de ser infiel.   Alguns dizem que biológicamente o homem  é polígamo, já que ele não engravida, mas por que então cada ejaculação libera milhões e espermatozóides de vez, numa só mulher?  Se é a poligamia é um mal biológico suas sementes deveriam se espalhar ao vento já que são tantas, e procriar aos milhares como as sementes da florzinha dente-de leão… Não me venha com esta. Vivemos no Brasil séculos de engessamento cultural em torno de conceitos deturpados, e ainda tentamos ser modernos e científicos para justificar esta poeira secular no nosso cérebro…Poeira assentada na cabeça de homens e mulheres. Principalmente mulheres.

Existe uma grande diferença entre os conceitos de homem e mulher do Brasil e dos Estados Unidos. A Bíblia influenciou a base da cultura americana, enquanto o Alcorão influenciou a nossa. A mulher americana embrulhada na Bíblia era protegida por Deus, na sua essência. A mulher brasileira gerada pelo Alcorão do catolicismo islâmico da península ibérica sempre foi apenas uma serva.

Mas nem uma nem outra ficaram paradas no tempo. A cultura dos pioneiros quackers foi se entranhando de um machismo supostamente paulino, as mulheres não gostaram, cansaram de esperar uma resposta, uma virada cultural profética, então fizeram elas mesmas a mudança que acharam que deveriam fazer. O movimento feminista foi uma espécie de continuação não cristã às respostas que o cristianismo começou a dar e não terminou. Mesmo os historiadores não cristãos reconhecem que a liberação feminina e a igualdade dos sexos que supostamente reina nas culturas ocidentais não seria possível sem o Cristianismo.

Paulo foi muito menos machista do que se pensa. Em seus escritos largamente mal-interpretados defendeu os direito das mulheres assim como o dos escravos e em seu ministério, leia o livro publicado pela editora Betânia: Why not women… por Loren Cunningham e David Hamilton.

A mulher machista aceita passivamente sua condição de objeto. A mulher machista é carente na mais profunda essência de seu ser, e vive para o prazer de ser desejada, observada, chamada de gostosudas e outros “zudas” em diante, seja por meio de olhares discretos e elegantes, seja pelo vernáculo mais explícito de um grupo de operários empoleirados num prédio em construção. Vire este olhar uma música, cartão postal musical do Brasil como “Garota de Ipanema”, que não passa de uma cantada elegante da mesa genial de um bar de praia, uma telenovela em sua homenagem, um filme, ou descambe num crime serial  como os crimes passionais do moto-boy de São Paulo. Ela foi olhada, para ela isto é tudo. Ouvi outro dia de uma socialite que posa de guru de etiqueta e moda,  uma declaração típica da brasileira-machista-chique: “Coitada da mulher que nunca sofreu assédio sexual, deve querer se matar com um tiro…”

O homem machista é inseguro e sua principal  fonte de afirmação é sua pseudo superioridade sexual. O pior é que esta balela nem a ele engana. Ele se sente fraco na sua força, tem que se provar aos gritos e a pancada, ou no meio cristão até à força de uma teologia bíblica falaciosa, apoiada em padrões culturais falsos e em preconceitos milenares. O machista aparece em todos os formatos, cores, religiões e posições sociais. A maioria deles nem sabe que é machista, no fundos se acha até condescendente com as mulheres, sendo elas animais de uma espécie tão inferior.

O machista olha para si e não se enxerga como é, enxerga uma proposta social uma cobrança de papel, uma demanda. Ele é cobrado e se cobra. Ele se ressente do pai que não teve e sente só. Agora é pai ele mesmo e não sabe ser, repete a indiferença e os abusos que sofreu do pai nos filhos, e produz homens como ele da mesma espécie insegurança e da mesma semelhança agressiva. Ele não aprendeu que pode ter sentimentos, que pode se expor que pode se tornar vulnerável. Ele não sabe que seu valor sexual não está no ser melhor, ou superior, mas sim no ser ele mesmo. Como as mulheres os homens precisam de um banho de amor para serem curados, para se sentirem legítimos e valiosos na essência mais profunda de seu ser.
Como na música de Marcelo Camelo também cantada por Maria Rita.

Cara Valente


Não, ele não vai mais dobrar
Pode até se acostumar
Ele vai viver sozinho
Desaprendeu a dividir
Foi escolher o mau-me-quer
Entre o amor de uma mulher
E as certezas do caminho
Ele não pode se entregar
E agora vai ter de pagar
Com o coração olha lá
Ele não é feliz
Sempre diz
Que é do tipo cara valente,
Mas veja só,
A gente sabe
Este humor é coisa de um rapaz
Que sem ter proteção
Foi se esconder atrás,  da cara de vilão
então
Não faz assim rapaz,
Não bota este cartaz
Que a gente não cai não,
Eh, eh ele não é de nada olha
Esta cara amarrada é  só
um jeito de viver na pior,
Eh eh ele nao é de nada olha
Esta cara amarrada é só
Um jeito de viver neste mundo de mágoas.

Custei a encontrar uma música brasileira que dissesse as coisas que esta diz.  Pode ser que aja outra, meu conhecimento pop não é tão vasto assim, mas pode ser que não ajam muitas mesmos em que os homens falam do seu íntimo. O Chico Buarque conseguiu falar das angústias com maestria mas e dos homens? Ele quase não fala… Será que os homens não tem angústias? O cara da cara amarrada é um macho no sentido brasileiro da palavra. Não sabe lidar com seus sentimentos, não sabe se entregar, não perdoa porque tem um orgulho a manter, não sabe retribuir. O amor pra ele é uni-lateral onde ele está na ponta que só recebe mas não sabe dar… Que pena. Dá dó deste macho. Mas macheza tem cura. Do mesmo jeito que o desvalor “búndico” da mulher brasileira também tem cura. Jesus nos restaura a nossa feminilidade e masculinidade plenas, saudáveis e belas, que se completam e se valorizam mutuamente.

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Mais uma digressão pessoal

Digressão é mudar de assunto, necessária para ainda ficar no tema: Pelados, mas santos, por uma teo-filo-missio-antropo-socio-logia sem ataduras culturais


Enquanto eu caminhava pela mata, nos sobes e desces poças e troncos meu espírito se angustiava. Meus companheiros de caminhada são dois colegas de missão, um casado com uma de minhas melhores amigas, outro solteiro recém-chegado, estrangeiro, que conheço pouco. A possibilidade de ter aqueles olhares masculinos sobre meu corpo nu, me incomodava profundamente. Para os índios a nudez é parte da vida, como eu já disse uma sociedade nua pode ser até mais honesta, os traseiros são rostos, e como nos rostos o refletir do tempo não são uma vergonha, mas uma honra. Mas para nós animais urbanos pós-modernos cidadãos do país campeão mundial em implantes de silicone não é assim.

“-Sempre me meto em confusões, porque eu tinha que inventar esta visita, os índios nem se importam comigo, sou mulher e mulher não vale um tostão, se fosse o Reinaldo seria melhor, ele é forte, eles iriam gostar de revê-lo, mas eu, tô por fora, não posso nem cantar como pajé porque mulher não canta, houve só uma há muito tempo atrás… E agora vou ter meu traseiro exposto pra estes caras… Suprema humilhação, se eu fosse homem nem iria ligar, mas sou mulher e meu traseiro tem que ser uma espécie de patrimônio pessoal…. Quem sabe eu deveria ter feito implante ou lipo, esta vida de missões, nunca se tem tempo ou dinheiro para se cuidar de si mesmo…”

O sentimento de inadequação me sufocava. Dizem que a floresta absorve muito mais gás carbônico do que é capaz de expelir, e o oxigênio é abundante. Mesmo assim ela vai se tornando numa caverna escura na medida que se entra nela, e te envolvendo com um sentimento claustrofóbico imenso. Uma outra mulher da missão ia comigo, mulher de Deus também casada, alguns anos mais jovem e que anda investigando a luta contra as injustiças sofridas pelas mulheres ao redor do mundo. Não liguei as coisas, não entendi o que estava acontecendo, só continuei a me lamuriar pelo que teria que passar, e a questionar a validade de meu ministério ali.

Na verdade o sentimento de inadequação já me perseguia há algum tempo, desde que há alguns meses atrás assumi o posto de presidente nacional da missão. A partir daí passei a viver como um condenado diante do pelotão de fuzilamento. Um gesto fora do lugar, uma palavra, um grito e pumba, pápápápá, seria o fim… Porquê? Sou mulher. Carrego o mundo no ventre, gero o mundo. Ali na selva todo este sentimento injusto de cobrança se tornou no pavor concreto de ser vista nua. Ficaria nua não só no corpo, mas no caráter, no ministério, na personalidade, na espiritualidade. Seria vista no raio x, eu mulher, mais branca do que deveria, mais pesada do que deveria, imprópriamente mulher no mundo da supremacia masculina.

Foi no meio de uma trilha completamente alagada que a voz de Jesus começou a sussurrar no meu ouvido. Mais de meia hora com água pela cintura, cruzando um igapó, (mata submersa) carregando a mochila mais alta para não molhar e fincando uma vara pontuda na lama à frente antes de pisar para ter certeza de que não haviam arraias deitadas esperando para enterrar seu ferrão nos nossos pés. O frio da água, a lama dificultando os passos, a sombra do igapó e a voz de Jesus me dizendo: “Fica triste não minha filha, eu te enviei. Você é mulher mas não é inadequada. É como mulher que você vai pisar lá, emissária da minha palavra. Me lembrei de minhas colegas de missão que por muitos anos trilhavam aquele mesmo caminho carregando nas costas seus filhos para ir viver na aldeia. Pensei em toda revelação do amor de Deus que elas representavam como mulheres do mundo de fora, estrangeiras aquela realidade indígena pisando ali, orando ali, cantando, vivendo Jesus e seu amor pelas viúvas e orfãos da tribo, pelas meninas adolescentes, pelos garotos.

Mulher, mas não inadequada, acho que repetia em voz alta, enquanto dava meus passos desajeitados na lama. Chegamos depois de quase seis horas de caminhada pesada. Revi minhas amigas antigas, vi as viúvas, as velhas e as novas adolescentes casadoiras. Conversamos principalmente sobre sexo e comida (este é o principal tema de conversas em todo mundo creio eu, e na tribo também). Pedi uma tanga emprestada, veio o ritual da pintura, com leite de peito e cuspe. Veio a nudez, e ela me caiu bem. Via os colegas de missão há alguns metros de distância um tanto constrangidos. Via a alegria de minhas amigas indígenas e como celebraram minha chegada, meus seios à mostra, mas não me envergonhava mais. Não sou inadequada. Estava ali por Jesus.

Minha colega tomou coragem na minha coragem e também se desnudou. As meninas da tribo então nos tomaram pela mão e nos levaram para uma outra casa comunitária próxima onde celebramos longamente com muito canto, choro, orações a presença de Deus no nosso meio, no meio do povo, seu consolo para os corações cansados, seu perdão para os corações amargurados. Tomamos autoridade de pajés espirituais, mesmo que para aquela cultura não fosse totalmente apropriado mulheres fazerem isto. Para Deus eu era.

Na volta um dos companheiros disse que não precisávamos ter ido tão longe. Me desculpe colega, mas vou até onde Jesus vai comigo. E ele foi além da vergonha da nudez para a vergonha da cruz… Quando Pedro resistiu contra a necessidade de Jesus ir para Jerusalém para morrer, eu também resisto às vozes religiosas que diminuem a amplitude do sacrifício e a ousadia necessária na obra missionária. Eu havia me desnudado não só no físico, mas do meu machismo. Eu era machista e pequena aos meus próprios olhos e não sabia. A doença do machismo estava oculta na mente de uma mulher que representa o conceito quase que oposto a ela.

Eu precisava ir “tão longe” e o povo também precisava de me ver ali encarnada de índia, literalmente. Não sei se os que lerem vão entender o que quero dizer. Acho que tem a ver com ser mulher, e sentir nua neste mundo masculino, e do valor que temos diante de Deus apesar de tudo… É isto.

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Direto do púlpito da pregadora Rita Lee

Estariam a Rita Lee e a Zélia Duncan sendo cristãs ou pagãs quando compuseram, Pagu e aí voltamos à Maria Rita que cantava Pagu no meu ouvido com toda ginga naquele dia de pedalada. A letra que segue mais ou menos assim, e me desculpem por não omitir as palavras mais chulinhas da letra, mas letra é letra e foi a Rita Lee escreveu, então dá um desconto aí:

 

Pagu
Mexo e remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que ser carvão
Eu sou pau pra toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta
Não sou freira nem sou puta
Porque nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homi…
Ratatá
Sou rainha do meu tanque
Sou pagu indignada no palanque
Fama de porra-louca, tudo bem
Minha mãe é Maria-Ninguém
Não sou atriz modelo dançarina
Meu buraco é mais em cima

A música fala de Pagu, revolucionária feminista do início do século passado, mas não creio que seja um grito feminista.
Tenho que explicar isto porque o feminismo é muito mal visto pelas rodas evangélicas. Na verdade qualquer “ismo” é ruim  porque ter um ismo no fim significa absolutizar o que vem antes e ninguém pode ter esta honra nas nossas mentes a não ser Deus… Mas a origem do feminismo foi uma necessidade genuína de mudar a injustiça e discriminação social que a mulher sofria!! Deveria ser uma preocupação cristã esta não é? Ainda hoje mulheres sofrem abusos horríveis em todo o mundo. 130 milhões de mulheres são mutiladas pela prática da circuncisão. Outros milhões são mortas anualmente por infanticídio ou aborto na China só por não serem homens, e por aí em diante. Isto não está certo.Quem deveria estar chorando por estas mulheres somos nós, cristãos, que sabemos que diante de Deus não há grego nem judeu, nem macho nem fêmea, mas todos temos igual valor…
Um texto de Pagu: “A mulher de todos os séculos civilizados só conheceu uma finalidade – o casamento. O seu lugar ao sol, agasalhada pela sombra viril e protetora de um homem que se encarregasse de todas as  iniciativas. Todos os anseios e necessidade paravam neste ponto, com o conseqüente sofrimento incluído no contrato”.
A música trata da mulher se descobrindo e descobrindo seu valor. Não vivo para ser a tetéia de ninguém tenho valor intrínseco, não sou o que os estereótipos culturais dizem que sou (p…, modelo, dançarina, feiticeira, etc.) Mas sou o que tenho que ser, Maria, rainha ainda que sobre um tanque, vitoriosa, forte e cheia de garra… Bonito não é?
Enquanto escrevo isto estou com meu notebook sentada no meio de platéia que assiste a um fórum sobre a violência sexual contra a mulher. A maioria da platéia é feminina. Todos os palestrantes são mulheres. Apesar de estar sendo hospedado na sede do sistema judiciário do estado, é a primeira vez que o fórum acontece num âmbito mais abrangente e há alguns magistrados presentes. As palestrantes seguem citando leis inumeráveis que não são conhecidas do povo na sua maioria, e muito  menos cumpridas. Na medida que começam a falar um peso esmagador desce sobre todos, como se estivéssemos tentando impedir o inexorável, ou tendo diante de nós a tarefa de cumprir uma missão impossível sem a presença do Tom Cruise.
Observo também na platéia que várias mulheres seguem a moda local, calças apertadas, tangas delineadas, por trás da lycra das calças, grandes brincos, grandes decotes, até as gordinhas. Trouxemos também o nosso grupo de jovens. No último fórum como este este, meu marido participou sozinho numa salinha da cooperativa médica do estado, único homem presente na primeira parte, depois convidou um amigo magistrado para a segunda parte, por isto hoje estamos aqui na sala chique e ar-condicionada do poder judiciário. Este magistrado é um cristão sério e que abriu os olhos para suas responsabilidades missionárias dentro de seu cargo. Quer trazer com o convite uma consciência mais profunda da seriedade do problema para os juízes do colégio que lidera.
Vejo alguns cristãos na sala, uma médica, um pastor, e nosso grupo jocumeiro sempre inadequadamente hetereogêneo. Um pagodeiro carioca, um boliviano índio, um paulistano alto, e várias moças de vários estados diferentes e passados dos mais diversos. Algumas segundo eu sei através da convivência e aconselhamento, sofreram abusos na infância, outras viveram da prostituição até antes de se converterem. Uma delas saiu da rua ontem, e com certeza está inquieta passando por uma crise de abstinência de mela, a borra da cocaína, droga extremamente popular nestas paragens…
Na hora das perguntas, não sabemos o que dizer. As palavras morrem prematuras na garganta, as idéias se encolhem fetais no meu cérebro. As possíveis soluções parecem tão distantes quanto o tempo em que o leão e o cordeiro que brincarão juntos.  Formulo devagar uma idéia e me expresso de maneira confusa,  mas parece que atinjo a preocupação comum à maioria de nós leigos presentes. Mulheres são abusadas pelos maridos, sofrem violência, adolescentes engravidam cada vez mais cedo,  o lugar mais comum para os abusos sexuais é o próprio lar das crianças, tudo isto são sintomas de uma sociedade doente, erotizada no cerne.  Como lutar contra uma corrente tão forte de erotização precoce, como impedir o genocídio moral que a mídia brasileira pratica contra esta geração de jovens? A  violência, a gravidez precoce, os abusos são apenas sintomáticos. A razão de tudo é o desvalor da vida, da mulher, a idolatria do sexo,  a erotização como fonte de afirmação existencial…
De volta à Rita Lee, o grito de Pagu, calou forte no meu coração. Porque ainda nós cristãos não fizemos um corinho assim? Um hino, um mantra evangélico qualquer, uma declaração de louvor diante de Deus pela maneira maravilhosa com que Ele nos fez?   Porque ainda não dissemos nada nós mulheres cristãs sobre o nosso valor, que transcende a integridade de nossos traseiros, sobre nosso coração valente que carrega este Brasil desde sua formação que mostra que mesmo sem a presença do silicone, somos mulheres de muito peito…
É cristão dividirmos homens de um lado mulheres de outro, para evitar contatos não santos durante nossos santos cultos? O verdadeiro Cristianismo deixa as mulheres livres, não impõe usos e costumes?… O verdadeiro crisitianismo deixa as mulheres livres exporem as partes corporais que bem lhes entende, e ainda assim adorarem santamente nos santos cultos? Ou é mais cristão nem discutirmos nada disto nos nossos santos cultos e continuarmos pregando sobre a Bíblia como se vivêssemos na lua e não no planeta terra? É mais cristão ignorarmos as questões sociais e culturais e tentarmos apenas lutar para educar evangelicamente nossa própria comunidade cristã? Esta sob a minha  reponsabilidade a adolescente paulista-carioca-gaúcha  filha de pais separados que assiste malhação todo dia e transa sem camisinha com o namorado, mesmo que ela não seja crente, nem more em Rondônia? É minha resposabilidade brigar com o Gilberto Braga ou com Manoel  Carlos portadores de óticas morais  tortas, banalizadores profissionais de perversões e pecados?
Devo ver ou não ver novela? A Maria Clara de Malu Mader é  a mesma Helena da Cristiane Torloni que foi a mesma Edviges,que é a mesma Débora Secco,  E Helena da Vera Fisher, que é a própria Vera Visher, perturbada por tanto poder sexual que lhe foi dado por Deus (???) mas ao mesmo tempo com tão pouca capacidade de ser amada, e de amar,  de gerenciar dignamente a criação de seus filhos, o desgaste do tempo nos relacionamentos, a felicidade de se ser simples e comum. É mais crente não me saber parte desta mesma geração de mulheres conflituadas por cobranças impossíveis de serem atendidas, atormentadas por seu principal algoz, seu próprio corpo. Não sabê-las, me torna livre delas?
Acho que infelizmente não. Não sabê-las me torna mais vulnerável. As copio sem saber, porque elas ditam moda. Internalizo seus valores, porque estão presentes nas amigas, nas músicas, nas aspirações dos homens que nos cercam, nas decisões tomadas na igreja sobre quem fica na frente na hora do coral, ou de como a mulher do pastor deve arrumar seu cabelo, ou que tipo de calça ela vai usar nos cultos quando estiver orando, do tipo que marca a tanga ou do tipo que não marca, e a deixará com o perfil traseirístico da sua avó, o que certamente a faria se sentir desconfortável no meio de tantas dirigentes de louvor transpirando sensualidade.
Começei o capítulo com a proposta de discutir quem somos. Quem somos nós brasileiros e cheguei a quem é a mulher brasileira e com isto posso até fazer um raio x de mim mesma. Uma situação  que vivi me ajudou a entender um pouco mais.

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I. QUEM SOMOS? Mitos de origem que revelam nossa identidade

 

Eu e meu bumbum, meu bumbum e eu, meu bumbum sou eu?

A mulher brasileira e sua crise de identidade

Pedalando um dia para perder peso (ato e preocupação tipicamente pós-modernos) na estradinha barrenta na beira do rio onde moro, passei na frente de uma igreja da Assembléia de Deus, construída de madeira mas ainda tipicamente desenhada com a torrezinha na frente a porta larga e a pintura azul turquesa. É uma igreja de poucos anos, nossas equipes evangelizando pelas redondezas ajudaram a abrir, assim como outras de denominações diferentes há poucos quilômetros de distancia na mesma trilha ribeirinha.

Nada seria estranho na cena se não fosse domingo. Era domingo de manhã. Tenho que explicar que a igreja que eu freqüento, não tem escola dominical senão provavelmente alguns já se indisporiam com meu Cristianismo além do necessário. Lá vou eu minha roupa de ginástica, um tanto apertada, CD player no ouvido a todo vapor com o novo disco da Maria Rita. Aliás o CD player nem é meu é do meu filho de 12 anos, e faz pouco tempo que descobri o prazer que há em isolar-se do mundo com música digital no ouvido.

Passei na porta da igreja e o culto ia a todo vapor. Homens de um lado, mulheres de outro, camisas de manga comprida de colarinho nos homens, apesar do calor, mulheres bem vestidas nas suas saias de domingo. Eram poucos, e no relance que captei na minha passagem ciclística, estavam de pé, de mãos estendidas uns para os outros orando.

Eu tinha tempo, e apesar da Maria Rita, fiquei pensando naquelas orações. Posso dizer que as conheço bem, missionária que fui junto com a Assembléia, de coque e tudo, por cerca de um ano no nordeste. São orações intensas, cheias de vida, mas que como todas orações de todos os grupos religiosos, por difícil que nos pareça esta afirmação, seguem um determinado padrão cultural.
Que diferença haveria entre mim, a crente pós-moderna, escutando música categorizada como “música do mundo” por uma grande parte dos cristãos evangélicos, e aqueles irmãos ali de mãos estendidas, reproduzindo no meio da Amazônia fielmente a cultura aprendida e passada de geração em geração desde o início do século passado? E aí apesar de parecer não quero com isto fazer nenhuma crítica, ou julgamento de valores sobre os irmãos da Assembléia. Não me senti nem me sinto melhor do que eles. Até pelo contrário minha tendência religiosa é me sentir acusada ali naquele momento, pedalando ao invés de estar em algum culto impondo a mão sobre alguém, mesmo sabendo que minhas horas de pedaladas são sempre horas maravilhosas na presença de Deus.

É claro que esta discussão começa com o conceito de Cristianismo e identidade cristã. Ser cristão será viver debaixo da obrigação de seguirmos uma determinada cultura considerada cristã, ou pode haver um Cristianismo livre para descobrir e reformar sua própria cultura, livre para seguir a essência dos ensinos de Jesus e independente das referências comuns da cultura evangélica? Jesus era evangélico? Se ele estivesse vivo hoje seria ele um pastor evangélico? Será que ser cristão conflita diretamente com o ser brasileiro? Posso continuar sendo brasileira e ainda assim refletir Jesus?

Será que existem hábitos, costumes e comportamentos que pertencem ao nosso evangelicalismo, mas que não pertencem ao Cristianismo? Quem é a mulher brasileira e quem é a mulher cristã brasileira? Qual é a diferença entre as duas?
O Cristianismo que não questiona que não pergunta, repete e copia. Copiamos formas vazias, repetimos padrões antigos, pecados e conceitos antigos. Somos fora de moda até nos pecados que cometemos.
Foi aí que parou meu pensamento diante da igrejinha de madeira.

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