Direto do púlpito da pregadora Rita Lee

Estariam a Rita Lee e a Zélia Duncan sendo cristãs ou pagãs quando compuseram, Pagu e aí voltamos à Maria Rita que cantava Pagu no meu ouvido com toda ginga naquele dia de pedalada. A letra que segue mais ou menos assim, e me desculpem por não omitir as palavras mais chulinhas da letra, mas letra é letra e foi a Rita Lee escreveu, então dá um desconto aí:

 

Pagu
Mexo e remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que ser carvão
Eu sou pau pra toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta
Não sou freira nem sou puta
Porque nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homi…
Ratatá
Sou rainha do meu tanque
Sou pagu indignada no palanque
Fama de porra-louca, tudo bem
Minha mãe é Maria-Ninguém
Não sou atriz modelo dançarina
Meu buraco é mais em cima

A música fala de Pagu, revolucionária feminista do início do século passado, mas não creio que seja um grito feminista.
Tenho que explicar isto porque o feminismo é muito mal visto pelas rodas evangélicas. Na verdade qualquer “ismo” é ruim  porque ter um ismo no fim significa absolutizar o que vem antes e ninguém pode ter esta honra nas nossas mentes a não ser Deus… Mas a origem do feminismo foi uma necessidade genuína de mudar a injustiça e discriminação social que a mulher sofria!! Deveria ser uma preocupação cristã esta não é? Ainda hoje mulheres sofrem abusos horríveis em todo o mundo. 130 milhões de mulheres são mutiladas pela prática da circuncisão. Outros milhões são mortas anualmente por infanticídio ou aborto na China só por não serem homens, e por aí em diante. Isto não está certo.Quem deveria estar chorando por estas mulheres somos nós, cristãos, que sabemos que diante de Deus não há grego nem judeu, nem macho nem fêmea, mas todos temos igual valor…
Um texto de Pagu: “A mulher de todos os séculos civilizados só conheceu uma finalidade – o casamento. O seu lugar ao sol, agasalhada pela sombra viril e protetora de um homem que se encarregasse de todas as  iniciativas. Todos os anseios e necessidade paravam neste ponto, com o conseqüente sofrimento incluído no contrato”.
A música trata da mulher se descobrindo e descobrindo seu valor. Não vivo para ser a tetéia de ninguém tenho valor intrínseco, não sou o que os estereótipos culturais dizem que sou (p…, modelo, dançarina, feiticeira, etc.) Mas sou o que tenho que ser, Maria, rainha ainda que sobre um tanque, vitoriosa, forte e cheia de garra… Bonito não é?
Enquanto escrevo isto estou com meu notebook sentada no meio de platéia que assiste a um fórum sobre a violência sexual contra a mulher. A maioria da platéia é feminina. Todos os palestrantes são mulheres. Apesar de estar sendo hospedado na sede do sistema judiciário do estado, é a primeira vez que o fórum acontece num âmbito mais abrangente e há alguns magistrados presentes. As palestrantes seguem citando leis inumeráveis que não são conhecidas do povo na sua maioria, e muito  menos cumpridas. Na medida que começam a falar um peso esmagador desce sobre todos, como se estivéssemos tentando impedir o inexorável, ou tendo diante de nós a tarefa de cumprir uma missão impossível sem a presença do Tom Cruise.
Observo também na platéia que várias mulheres seguem a moda local, calças apertadas, tangas delineadas, por trás da lycra das calças, grandes brincos, grandes decotes, até as gordinhas. Trouxemos também o nosso grupo de jovens. No último fórum como este este, meu marido participou sozinho numa salinha da cooperativa médica do estado, único homem presente na primeira parte, depois convidou um amigo magistrado para a segunda parte, por isto hoje estamos aqui na sala chique e ar-condicionada do poder judiciário. Este magistrado é um cristão sério e que abriu os olhos para suas responsabilidades missionárias dentro de seu cargo. Quer trazer com o convite uma consciência mais profunda da seriedade do problema para os juízes do colégio que lidera.
Vejo alguns cristãos na sala, uma médica, um pastor, e nosso grupo jocumeiro sempre inadequadamente hetereogêneo. Um pagodeiro carioca, um boliviano índio, um paulistano alto, e várias moças de vários estados diferentes e passados dos mais diversos. Algumas segundo eu sei através da convivência e aconselhamento, sofreram abusos na infância, outras viveram da prostituição até antes de se converterem. Uma delas saiu da rua ontem, e com certeza está inquieta passando por uma crise de abstinência de mela, a borra da cocaína, droga extremamente popular nestas paragens…
Na hora das perguntas, não sabemos o que dizer. As palavras morrem prematuras na garganta, as idéias se encolhem fetais no meu cérebro. As possíveis soluções parecem tão distantes quanto o tempo em que o leão e o cordeiro que brincarão juntos.  Formulo devagar uma idéia e me expresso de maneira confusa,  mas parece que atinjo a preocupação comum à maioria de nós leigos presentes. Mulheres são abusadas pelos maridos, sofrem violência, adolescentes engravidam cada vez mais cedo,  o lugar mais comum para os abusos sexuais é o próprio lar das crianças, tudo isto são sintomas de uma sociedade doente, erotizada no cerne.  Como lutar contra uma corrente tão forte de erotização precoce, como impedir o genocídio moral que a mídia brasileira pratica contra esta geração de jovens? A  violência, a gravidez precoce, os abusos são apenas sintomáticos. A razão de tudo é o desvalor da vida, da mulher, a idolatria do sexo,  a erotização como fonte de afirmação existencial…
De volta à Rita Lee, o grito de Pagu, calou forte no meu coração. Porque ainda nós cristãos não fizemos um corinho assim? Um hino, um mantra evangélico qualquer, uma declaração de louvor diante de Deus pela maneira maravilhosa com que Ele nos fez?   Porque ainda não dissemos nada nós mulheres cristãs sobre o nosso valor, que transcende a integridade de nossos traseiros, sobre nosso coração valente que carrega este Brasil desde sua formação que mostra que mesmo sem a presença do silicone, somos mulheres de muito peito…
É cristão dividirmos homens de um lado mulheres de outro, para evitar contatos não santos durante nossos santos cultos? O verdadeiro Cristianismo deixa as mulheres livres, não impõe usos e costumes?… O verdadeiro crisitianismo deixa as mulheres livres exporem as partes corporais que bem lhes entende, e ainda assim adorarem santamente nos santos cultos? Ou é mais cristão nem discutirmos nada disto nos nossos santos cultos e continuarmos pregando sobre a Bíblia como se vivêssemos na lua e não no planeta terra? É mais cristão ignorarmos as questões sociais e culturais e tentarmos apenas lutar para educar evangelicamente nossa própria comunidade cristã? Esta sob a minha  reponsabilidade a adolescente paulista-carioca-gaúcha  filha de pais separados que assiste malhação todo dia e transa sem camisinha com o namorado, mesmo que ela não seja crente, nem more em Rondônia? É minha resposabilidade brigar com o Gilberto Braga ou com Manoel  Carlos portadores de óticas morais  tortas, banalizadores profissionais de perversões e pecados?
Devo ver ou não ver novela? A Maria Clara de Malu Mader é  a mesma Helena da Cristiane Torloni que foi a mesma Edviges,que é a mesma Débora Secco,  E Helena da Vera Fisher, que é a própria Vera Visher, perturbada por tanto poder sexual que lhe foi dado por Deus (???) mas ao mesmo tempo com tão pouca capacidade de ser amada, e de amar,  de gerenciar dignamente a criação de seus filhos, o desgaste do tempo nos relacionamentos, a felicidade de se ser simples e comum. É mais crente não me saber parte desta mesma geração de mulheres conflituadas por cobranças impossíveis de serem atendidas, atormentadas por seu principal algoz, seu próprio corpo. Não sabê-las, me torna livre delas?
Acho que infelizmente não. Não sabê-las me torna mais vulnerável. As copio sem saber, porque elas ditam moda. Internalizo seus valores, porque estão presentes nas amigas, nas músicas, nas aspirações dos homens que nos cercam, nas decisões tomadas na igreja sobre quem fica na frente na hora do coral, ou de como a mulher do pastor deve arrumar seu cabelo, ou que tipo de calça ela vai usar nos cultos quando estiver orando, do tipo que marca a tanga ou do tipo que não marca, e a deixará com o perfil traseirístico da sua avó, o que certamente a faria se sentir desconfortável no meio de tantas dirigentes de louvor transpirando sensualidade.
Começei o capítulo com a proposta de discutir quem somos. Quem somos nós brasileiros e cheguei a quem é a mulher brasileira e com isto posso até fazer um raio x de mim mesma. Uma situação  que vivi me ajudou a entender um pouco mais.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Direto do púlpito da pregadora Rita Lee

  1. (…) Assumo meu lado Pagu… rsrs

    E, confesso – Que senso! Que peso de responsabilidade me trouxe este texto.

    A Cruz é o preço do meu perdão,
    Haja Hope

  2. Mais isto é bom demais gente!

    Mulher porreta!

    Abençoadaça do Pai!

  3. Braulia,
    Como é bom ler textos de uma mulher que não tem “muito” medo de dizer o que pensa!!!

  4. Claudia Paiva

    Primeiro obrigada, porque quando eu leio seus escritos me sinto muito constrangida. Isso é bom, este constrangimento me faz pensar e agir. Estou lendo um livro ” A MISSÃO DA MULHER” Paul Tournier e como ele consegue tocar minha alma neste sentido de quem sou como mulher e este se artigo..poxa vida…..

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