O papel da cultura e da mente na nossa vida

Como detesto perder tempo, e fazer você perder o seu, tenho que explicar porquê escrevi este livro. Escrever é um trabalho solitário, assim como ler. Estamos unidos, eu que escrevo, você que lê, mas num espaço virtual, em algum do tempo passado-presente, unidos e até íntimos às vezes, mas na verdade estamos sós. Para justificar tanta solidão há que se ter um bom motivo, há que se ter uma pretensão qualquer, uma razão especial, uma curiosidade, uma sede de saber, ou de comunicar algo novo.

 

Minha pretensão para este livro é enorme. Tenho até vergonha de admitir isto. Não me considero uma pessoa pretensiosa, e já tenho perguntado várias vezes a Deus se Ele concorda comigo nisto. A resposta na maior parte das vezes é um silêncio constrangedor, acho que a opinião dele deve ser um pouco diferente da minha.

 

Mas por favor me perdoem se minha pretensão não chegar à altura da coisa comunicada, se o livro ficar aquém do que você espera, se você ficar de saco tão cheio lá pelo meio das páginas e quiser se jogar fora do mundo, ou me jogar fora do mundo. Minha intenção é que você leia até o fim, assim como eu pretendo escrever até o fim. Mas também tenho a intenção de que você permaneça tão cheio de perguntas sobre o assunto no final quanto eu. Gostaria de te inchar o peito de questões desesperadas sobre a sua identidade brasileira, assim como eu me sinto agora no momento da criação do livro.

 

Livros não devem pretender esgotar assuntos. Digo que minha pretensão é grande, não porquê tenha encontrado respostas, mas porquê a pergunta é que faço é de grande escopo. Escopo pra quem não sabe quer dizer campo de assunto, amplitude. Pois é, voltando ao assunto, a pergunta é muito grande.

 

Carrego esta pergunta dentro de mim desde que comecei a dar as minhas primeiras nadadinhas para fora do aquário-prisão que é nossa cultura brasileira. Na verdade toda cultura humana funciona como uma espécie de aquário-prisão, não se ofenda se eu chamar nossa cultura brasileira assim mas não tem jeito. Ao mesmo tempo que é em nós e através de nós a glória de Deus refletida no verdadeiro, no belo e no bom em tudo o que temos e expressamos, a cultura é também nossa miséria, nossa infâmia, nossa cegueira. Contraditório, não? Pois não tem outro explicação, somos a glória de Deus em vasos de barro. Sejamos nós japoneses, italianos, elegantes franceses, fortes e corajosos bantos, somos todos uns prisioneiros de nós mesmos, dos conceitos errados que nos foram passados por nossos antepassados, e pelos não tão antepassados assim, pai, mãe, irmão, irmã, amigo, amiga, pastor, cachorro… Ôpa, por favor, não entendam que pastor e cachorro se encontram na mesma categoria…
Para continuar explicando, tenho que primeiro dizer o que quer dizer a palavra cultura no contexto deste livro. Sem que a gente tenha que entrar em todas as definições cansativas sócio-antropológicas, é necessário explicar esta palavra para que entendamos também a dimensão de nossa prisão dentro dela.

 

O que é cultura? Conjunto de comportamentos, crenças e idéias características de um povo, que se transmite de uma geração para outra e que resulta na história do povo, na formação de sua sociedade e na perpetuação de seus valores.
Toda comunicação humana se faz através da cultura. A cultura define as idéias usadas para se articular as palavras, os valores que elas expressam, a maneira de falar, a distância com a qual se posicionam os falantes um diante do outro, o tom de voz, e até a dinâmica de mudança constante sofrida pela língua em si.

 

Nossa religião está sujeita a nossa cultura. Como? Ah, a religião talvez, mas nosso relacionamento com Deus não… Não mesmo? Então me explica a hitlerização da Alemanha protestante, ou o Aparteid da África do Sul reformada. É infelizmente estas aberrações sócio-políticas surgiram em contextos culturais onde a Bíblia era o principal centro de referência moral. Onde mora o problema, na Bíblia, ou na cultura que interpreta a Bíblia?

 

Para se comunicar com os escritores da Bíblia, a revelação de Deus teve que passar por várias camadas culturais também.

 

Deus –> cultura local –> cultura familiar –> cultura pessoal

 

Para chegar até nós a revelação de Deus que vem destes escritos também tem que atravessar muitas paredes que barram a compreensão humana.

 

época bíblica –> agora–> cultura pessoal

A cultura da época bíblica de onde a revelação vem, a cultura religiosa e geral da nossa época, e nossa cultura pessoal, e o conhecimento e experiência que nós mesmos temos da vida, tudo isto interfere em nossa maneira de nos relacionarmos com Deus, e em como lemos e aplicamos sua palavra a nossas vidas.

 

Esta interferência cultural pode casar ou não com os princípios que a Bíblia propõe. Se a cultura é semelhante os princípios bíblicos são reforçados, se é conflitante, a luta corpo a corpo entre a Palavra de Deus e a cultura pode levar várias gerações.
Em momentos de intenso avivamento espiritual os princípios fluem da dimensão espírito para o contexto da igreja com facilidade. Mesmo sem que estejamos cem por cento conscientes o Espírito de Deus se encarrega de ensinar o amor, de se desvincilhar de certos preconceitos culturais, a graça de Deus nos alarga a mente e o coração. Mas momentos assim não são a rotina são excessão. No dia a dia de nosso casamento com Deus, cozinhamos, passamos, lavamos nossas roupas sujas, vestidos de avental e chinelos. É aí que devemos trabalhar para deixar a casa (de nossa cultura) limpa e reformada. A rotina da vida da igreja deveria ser uma rotina de lavagem mental, mente alvejada com k-boa (água sanitária, cândida, clorox, etc., ops olha a dona de casa falando) a cada dia para se livrar das nódoas de distorção conceitual, da impureza de comportamentos apodrecidos por idéias-mãe mais podres ainda.:

 

É a este processo que Paulo se referiu em Romanos:

 

“E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.”
Rm 12:2

 


Infelizmente fazemos muito menos disto do que deveríamos fazer. Aliás, pior ainda, nos ocupamos mais de fazer o contrário, fazer com a vontade de Deus se conforme ao mundo ao nosso redor, se amolde às necessidades criadas por nossa cultura. Isto se chama em antropologia de sincretismo. Nos ocupamos em tornar nosso evangelho cada vez mais sincrético para que fique também mais saboroso para os não crentes. Fiasco.

 

O livro vai tratar disto. Quais são nossos principais podres brasileiros? Como podemos nos curar deles sem deixar de ser brasileiros? Como podemos nos livrar de conceitos errados que atrapalham nosso evangelho, e que tiram a força de nossa palavra? Como podemos ser mais que simples religiosos, como podemos nos tornar reformadores poderosos da nossa sociedade?
Para chegarmos a algumas respostas vamos ter que andar pelo caminho da arte que nossa cultura produz, música, literatura, pintura, etc. Na arte é que conseguimos ver a alma da cultura. Espero que você não apenas goste do exercício que vou propor, mas que se torne um mestre nele…

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