O pecado mora ao lado, ou na cultura?

Como não podemos viver um Cristianismo flutuante, todos os conceitos cristãos sejam idéias essenciais, sejam sistemas, sejam virtudes e valores, repousam sobre as idéias, virtudes e valores de nossa cultura. Tudo é filtrado através do tecido sócio-cultural brasileiro para então tomar a forma humana, sua forma de igreja que é a igreja vestida de sociedade brasileira.
Muito tem sido escrito sobre o transporte transcultural do evangelho. Muito se discute sobre o que se pode ou não implantar numa igreja nova e transcultural. É ponto pacífico entre os missiológos, pelo menos a idéia de que existe uma diferença entre os povos na sua maneira de hierarquizar seu sistema de valores morais. Não que a essência do que é pecado seja diferente. Para algumas culturas como a nossa por exemplo, pecados sexuais são os mais graves de todos. Se um pastor comete adultério é imediatamente proscrito, ele pode ser avarento, malediscente, mas não adúltero. Outros povos não têm pecados sexuais em tão alta conta. Se preocupam mais com a generosidade. Um pastor neste caso pode ser adúltero (este pode aí diz respeito a tolerância, não é que ele pode mesmo, é que se tiver de pecar, que peque em algo menor porque obterá mais tolerância, deu pra entender?), mas nunca faltar com generosidade.
O conceito de propriedade num outro exemplo, muda de cultura para cultura, e o que é considerado roubo ou não depende desta noção. Na nossa cultura por exemplo propriedade é tudo o que é seu não importa onde esteja. Em algumas culturas indígenas seu é tudo o que está dentro dos limites de sua maloca o que está fora é público. Portanto para eles não seria roubo “pegar” algo que você deixou à noite no terreiro de sua casa. A importância da noção de propriedade no funcionamento social também vai afetar o grau de “maldade” atribuído ao conceito de roubo, ou a gravidade do “não furtarás” na estrutura moral daquela sociedade.
A idéia de virtude funciona assim também, mas no sentido inverso. O valor de uma ou outra área da santidade é diretamente proporcional à hierarquia daquele pecado ou virtude na escala moral da cultura em questão.
Entendam-me, não estou dizendo que o pecado é relativo. O que é relativa é a importância que atribuímos a um ou outro tipo de pecado. Um pastor americano pode passar sua vida pregando à uma congregação brasileira sobre a importância de ser pontual nos cultos mas achar no fim que a mensagem não entra nos duros corações do brasileiros. Por que não entra? Será que quando uma pessoa chega atrasada num culto ela está intencionalmente desrespeitando o pastor? De jeito nenhum. A noção cultural de hora certa para um brasileiro tem pelo menos quinze minutos a mais de diferença do que a noção americana. Um brasileiro chegando às 7:15 para um compromisso marcado para as 7:00 está super-dentro da hora certa!
Quando a contextualização da moralidade não ocorre, a pregação se torna vazia, e a virtude que é exaltada pela pregação, quando derivada de valores não importantes pode passar desapercebida ou até mesmo ter o efeito contrário de aumentar problemas existentes ao invés de trazer uma resposta que funcionaria como um remédio para a ferida social.

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