O individualismo doente da América Católica

Vamos então rever nossas raízes ibéricas, e nossa cultura brasileira no que diz respeito a idéia de autoridade, liderança e governo. Estaria certo o Caetano Veloso quando cantou:

 

Será que será, que será, que será,que nunca faremos senão confirmara incompetência da América Católica que sempre precisará de ridículos tiranos?”
Podres Poderes – Caetano Veloso



Nosso povo na sua origem é individualista. Disse o Sérgio Buarque de Holanda (que familinha sabida, hein?) citando muitos historiadores antigos que os portugueses e espanhóis podem ser considerados os verdadeiros precurssores do individualismo moderno.

“nenhum destes vizinhos (países vizinhos) soube desenvolver a tal extremo essa cultura da personalidade que parece constituir o traço mais decisivo na evolução da gente hispânica, desde tempos imemoriais. Pode dizer-se realmente que pela importância particular que atribuem ao valor próprio da pessoa humana, à autonomia de cada um dos homens em relação aos seus semelhantes no tempo e no espaço, devem os portugueses muito de sua originalidade nacional… Cada qual é filho de si mesmo, de seus esforço próprio, de suas virtudes…



O produto social esperado de um espírito assim tão exacerbadamente individualista é a anarquia. Um povo que não se vê como povo dificilmente vai poder ter governo, ou vai ter compromisso social, compromisso com o todo. Continua o Sérgio:

Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente com a cumplicidade ou a indolência displicente das instituições e costumes. As iniciativas, mesmo quando se quiseram construtivas, foram continuamente no sentido de separar os homens e não de os unir. Os decretos dos governos nasceram em primeiro lugar da nescessidade de se conterem e de se refrearem as paixões particulares e momentâneas…”



Ou seja o trabalho do governo instituído era um trabalho de freio de cavalo chucro e não de gerenciamento e normatização de um “corpo” unido. Assim eram os íberos e assim parece que continuamos sendo nós. Daí explica-se o nosso desapêgo à pátria mãe. Não temos necessidade de nos reportarmos à um todo comum para conquistarmos nossa identidade. Nossa glória não é o todo, mas o eu; os feitos e prestígio individuais. Nisto nos opomos radicalmente aos americanos que não são nem só uma pátria, mas um verdadeiro time, coeso em torno de sua estratégia única de vitória.

Nós não sabemos trabalhar em equipe, não somos capazes de extrair do sucesso do todo nosso senso de realização pessoal. Estamos fadados à escravidão de nossos limites pessoais. (A não ser que Deus nos cure da doença do individualismo é claro…) Quando viajamos ao exterior, procuramos não ser brasileiros em viajem. Somos os “cidadãos do mundo”, cosmopolitas e sofisticados, vesrtido de couro, tweed, jeans e cáqui, ou só os Zés da Silva. Às vezes até se faz necessária uma identificação do tipo, “sou brasileiro mas não como eles…” quando nos encontramos diante do preconceito causado por alguma sujeira deixada por nossos concidadãos…

De certa forma, sabemos que nossa cidadania termina aqui e que é difícil contar com esta pátria quando nos arredamos um centímetro para além dela… Um amigo meu, pastor, se viu em dificuldades na África quando visitava um grupo de missionários que trabalhavam debaixo de seu ministério. Uma guerra civil explodiu durante os dias em que ele estava ali, e ele precisou da ajuda da embaixada brasileira para tirar os missionários brasileiros, heróis, voluntários da fome naquele inferno remoto e que estavam ali na eminência de serem mortos. Conseguiu? Não. O cônsul e seus funcionários estavam preocupados em se livrar da situação e simplesmente lhes voltaram as costas. Mentiram se esconderam, e livraram a própria pele numa retirada estratégica. O pastor e os missionários recorreram então à embaixada americana e encontraram ajuda humanitária e desinteressada. Te dá vergonha? Pois é, a mim também.
Como esta sociedade individualista trabalha com esta realidade para tentar criar o mínimo de coesão necessária para funcionar? Ou como legitimar a noção de liderança ou governo? A única alternativa possível seria a renúncia a este personalismo…

“À autarquia do indivíduo, à exaltação extrema da personalidade, … só pode haver uma alternativa: a renúncia a essa mesma personalidade em vista de um bem maior. Por isso mesmo que rara e difícil a obediência aparece para os povos ibéricos como virtude suprema entre todas… essa obediência, obediência cega, tem sido até agora o único princípio político verdadeiramente forte…”



O ser humano é assim. A cada pecado, a cada orgulho corresponde uma virtude. A virtude ou a idéia oposta ao individualismo é a renúncia do eu para o bem do todo, ou como explica tão Sérgio Buarque, – a obediência cega… Para nós tem sido esta virtude também uma virtude essencial desde nossos primórdios. Vemos isto nas bandeiras, organizadas por uma hierarquia tirânica e intolerante, vemos nas missões jesuítas que também dependiam de uma relação desigual entre os índios e os padres, vemos este mesmo modelo repetido hoje até nas igrejas evangélicas, e na noção de autoridade que muitos cristãos alimentam puros e felizes achando que estão vivendo a noção de autoridade bíblica… Repetimos nossos vícios culturais e portanto repetiremos o passado, ainda que de uma maneira mais “cristã”.

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2 Comentários

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2 Respostas para “O individualismo doente da América Católica

  1. jairwpr

    Tenho sido abençoado através do seu twitter. Parabenizo também por seu Blog.
    É bom lembrar que os reis ibéricos receberam bulas papais concedendo amplos poderes para conquistarem a América. A escravidão de tribos africanas é outro capítulo vergonhoso daqueles reis.
    Mas tenho esperança de que a igreja brasileira saberá conciliar esta diversidade e influenciará a sociedade brasileira que precisa de remissão. Diante dela está também a possibilidade de remir a cultura, removendo o que o diabo antecipou.
    Apresento o link para o meu Blog Paracleto:
    http://jairwpr.wordpress.com/.

  2. Thiago Mafra de Oliveira

    Texto muito bom,o individualismo nasce com o filósofo Descartes, ele foi o primeiro a escrever em primeira pessoa e a buscar a explicação do ser em sim e não nos objetos de conhecimento,foi um marco,uma quebra de paradigmas, o homem saiu da idade média para a idade moderna,é preciso quebrar o pensamento cartesiano e pensarmos de maneira coletiva e sistemática,não dá mais pra olharmos pro nosso umbigo,as crises ecológica,social e de trabalho precisam ser olhadas como um todo.Corpo e não segmentos,é o que somos.Como igreja precisamos nos ligar aos temas transversais, o mundo espera respostas de nós,devemos levar a igreja ao mundo e cada cristão é a igreja.

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