Onde canta galo não canta galinha –

A pressão e opressão sobre o homem brasileiro

Uma vez sentada num culto no Rio de Janeiro passei por outra situação difícil. Eu tinha acabado de chegar de uma viagem de pelo menos 6 horas de avião da Amazônia ao Rio de Janeiro Maravilhoso. Na mesma manhã estava em casa feliz, escrevendo um texto, e meu marido me ligou:  “Venha me encontrar no Rio, temos uma reunião importante aqui.” Em uma hora eu estava no avião. (Tá vendo sou suuuper submissa- opa, agora não é hora destes risos, platéia…)  Minha roupa estava amarrotada e meu cabelo um tanto desgrenhado, não deu pra me arrumar depois da chegada. Quem dirigia o culto era a cantora Baby do Brasil. Lá estava pregando meu marido, entre muitas outras pregações e testemunhos porque o culto ali vai até as duas da manhã.

Ele começou a falar de sua vida e testemunho com seu bom humor peculiar. Quando falou do casamento, achou por bem falar de santidade para aquele grupo de espectadores sui-generis juntado ali mais pelo carisma da cantora Baby do que por outra coisa. Mulheres descasadas, homens de rostos macilentos marcados pela devassidão e pelo álcool, jovens no ápice de seus hormônios e na mais perfeita forma (e tatuagens) física. Reinaldo começou a falar sobre fidelidade, de como em vinte anos de casamento tinha sido fiel a mim, de como tinha controlado o sexo, mantido a pureza, apesar de ter tido uma vida devassa na juventude. Falou de como seguir a Deus e se guardar era muito melhor do que seguir os padrões mundanos de vida, e coisa e tal.

Era uma pregação poderosa e apropriada. No entanto soou aos meus ouvidos como javanês. Eu tinha certeza de que ninguém ali estava entendendo o que ele queria dizer muito menos os homens. Já os imaginei pensando nele como um pobre coitado, insatisfeito sexualmente, ou até quem sabe, homossexual. Imaginei que eles olhariam para mim com olhares clínicos de caça-modelos da Ford-Elite, e que iriam me reprovar em absolutamente todos os quesitos. Me encolhia na cadeira arrependida de ter tomado o avião naquela manhã, arrependida da roupa que escolhi vestir, do cabelo que eu não tinha arrumado adequadamente.

Não sou uma mulher insegura, e a minha própria reação me surpreendeu naquele dia. O que era aquilo? Porquê esta onda repentina de insegurança? O discurso dele que deveria me deixar orgulhosa, me sentindo respeitada e feliz, me deixou em pânico. Foi na dissecação de meus sentimentos naquele dia que descobri que eu mesma no fundo era machista.A sensação de inadequação que senti naquela hora brotou de um conceitinho sem-vergonha tão enraizado no meu sub-consciente que nem eu mesma sabia que ele estava ali.

Todo homem é por natureza um promíscuo. Os homens foram criados para procriar em grande escala, para reproduzir, por isto para eles o sexo é tão mecânico, e sua indentidade masculina está intrínsecamente ligada ao número de mulheres que eles tiveram ao longo de suas vidas. Ele é mais homem na proporção em que transa com mais mulheres. Certo? Errado. Meu marido não pensa assim. Mas eu descobri que eu pensava!! De repente não me senti digna do compromisso e da fidelidade dele, por não ter o traseiro da Sheila Melo ou os seios da Gisele Bündchen, ou por não ser duas…

O homem na nossa cultura nasce com valor intrínseco. Ele é menino-homem, machinho, saquinho roxo. O seu pai vai ter continuidade na sua linhagem, amarrem suas cabras que meu bode está solto. Quando ele nasce a felicidade é enorme. A mãe sabe que parindo um homem de certa forma fecha o círculo, homem-nascido-de-mulher, ela domina sobre seu dominador, possui sem ser possuída, marca ao mundo ao invés de ser marcada por ele. O homem sabe que um filho é sua esperança de eternidade, a continuação de seus sonhos, a realização de seus anseios mais ocultos. O garoto vai possuir por ele as mulheres que ele deixou de possuir, vai ganhar o dinheiro que ele não conseguiu, quem sabe obter o respeito e a aprovação social que o pai buscou, ou limpar as manchas que o pai deixou. Vai ser um jogador de futebol ou um cantor de pagode, vai aproveitar tudo o que não pude, mas na verdade vai é tristemente repetir meus erros e perpetuar as maldições que pesam sobre mim.

As expectativas dos dois lados são grandes, porque ali, no homem, nasceu um ser humano de verdade.
Quando a mulher nasce é diferente. Nasceu mulher, cuidado aqui mulher não casa, cai na vida cedo, vou ter dor de cabeça, netos dentro de casa, minha donzela, será que ela vai prestar? A mãe pensa que pelo menos vai ter quem ajude no fogão daqui a alguns anos e o pai pensa naquela boca a mais para encher de farinha. Alguns até ficam felizes porque bananeira-que-eu-plantei-eu mesmo-colho-o-cacho, ou seja, é mais uma mulher nascida para servir sexualmente o pai, e ele é quem tem o direito de lhe tirar a virgindade. E assim se fecha o círculo de desrespeito e abuso produzido pelo machismo de nossa cultura.
Sempre me considerei uma mulher moderna, emancipada, cônscia de meu valor. Mas ao ouvir a declaração pública de fidelidade de meu marido, vi que não passava de uma bailarina do Tchan, conceitualmente falando. Ali estava eu me sentindo meio-mulher porque tinha me casado com um meio-homem.

Será que estas idéias sobre a promiscuidade masculina intrínseca são universais? Sem querer descanbar aqui para um manual de auto-ajuda ou uma espécie de artigo da revista Marie Claire sobre a traição, queria dizer que não estas idéias não são universais. Homem não é igual a infidelidade em todas as culturas do mundo. Assisto os filmes americanos e descubro que família, filhos, compromisso, fidelidade para eles é sinônimo do ideal máximo de felicidade. Quando se ama não se tem necessidade de ser infiel.   Alguns dizem que biológicamente o homem  é polígamo, já que ele não engravida, mas por que então cada ejaculação libera milhões e espermatozóides de vez, numa só mulher?  Se é a poligamia é um mal biológico suas sementes deveriam se espalhar ao vento já que são tantas, e procriar aos milhares como as sementes da florzinha dente-de leão… Não me venha com esta. Vivemos no Brasil séculos de engessamento cultural em torno de conceitos deturpados, e ainda tentamos ser modernos e científicos para justificar esta poeira secular no nosso cérebro…Poeira assentada na cabeça de homens e mulheres. Principalmente mulheres.

Existe uma grande diferença entre os conceitos de homem e mulher do Brasil e dos Estados Unidos. A Bíblia influenciou a base da cultura americana, enquanto o Alcorão influenciou a nossa. A mulher americana embrulhada na Bíblia era protegida por Deus, na sua essência. A mulher brasileira gerada pelo Alcorão do catolicismo islâmico da península ibérica sempre foi apenas uma serva.

Mas nem uma nem outra ficaram paradas no tempo. A cultura dos pioneiros quackers foi se entranhando de um machismo supostamente paulino, as mulheres não gostaram, cansaram de esperar uma resposta, uma virada cultural profética, então fizeram elas mesmas a mudança que acharam que deveriam fazer. O movimento feminista foi uma espécie de continuação não cristã às respostas que o cristianismo começou a dar e não terminou. Mesmo os historiadores não cristãos reconhecem que a liberação feminina e a igualdade dos sexos que supostamente reina nas culturas ocidentais não seria possível sem o Cristianismo.

Paulo foi muito menos machista do que se pensa. Em seus escritos largamente mal-interpretados defendeu os direito das mulheres assim como o dos escravos e em seu ministério, leia o livro publicado pela editora Betânia: Why not women… por Loren Cunningham e David Hamilton.

A mulher machista aceita passivamente sua condição de objeto. A mulher machista é carente na mais profunda essência de seu ser, e vive para o prazer de ser desejada, observada, chamada de gostosudas e outros “zudas” em diante, seja por meio de olhares discretos e elegantes, seja pelo vernáculo mais explícito de um grupo de operários empoleirados num prédio em construção. Vire este olhar uma música, cartão postal musical do Brasil como “Garota de Ipanema”, que não passa de uma cantada elegante da mesa genial de um bar de praia, uma telenovela em sua homenagem, um filme, ou descambe num crime serial  como os crimes passionais do moto-boy de São Paulo. Ela foi olhada, para ela isto é tudo. Ouvi outro dia de uma socialite que posa de guru de etiqueta e moda,  uma declaração típica da brasileira-machista-chique: “Coitada da mulher que nunca sofreu assédio sexual, deve querer se matar com um tiro…”

O homem machista é inseguro e sua principal  fonte de afirmação é sua pseudo superioridade sexual. O pior é que esta balela nem a ele engana. Ele se sente fraco na sua força, tem que se provar aos gritos e a pancada, ou no meio cristão até à força de uma teologia bíblica falaciosa, apoiada em padrões culturais falsos e em preconceitos milenares. O machista aparece em todos os formatos, cores, religiões e posições sociais. A maioria deles nem sabe que é machista, no fundos se acha até condescendente com as mulheres, sendo elas animais de uma espécie tão inferior.

O machista olha para si e não se enxerga como é, enxerga uma proposta social uma cobrança de papel, uma demanda. Ele é cobrado e se cobra. Ele se ressente do pai que não teve e sente só. Agora é pai ele mesmo e não sabe ser, repete a indiferença e os abusos que sofreu do pai nos filhos, e produz homens como ele da mesma espécie insegurança e da mesma semelhança agressiva. Ele não aprendeu que pode ter sentimentos, que pode se expor que pode se tornar vulnerável. Ele não sabe que seu valor sexual não está no ser melhor, ou superior, mas sim no ser ele mesmo. Como as mulheres os homens precisam de um banho de amor para serem curados, para se sentirem legítimos e valiosos na essência mais profunda de seu ser.
Como na música de Marcelo Camelo também cantada por Maria Rita.

Cara Valente


Não, ele não vai mais dobrar
Pode até se acostumar
Ele vai viver sozinho
Desaprendeu a dividir
Foi escolher o mau-me-quer
Entre o amor de uma mulher
E as certezas do caminho
Ele não pode se entregar
E agora vai ter de pagar
Com o coração olha lá
Ele não é feliz
Sempre diz
Que é do tipo cara valente,
Mas veja só,
A gente sabe
Este humor é coisa de um rapaz
Que sem ter proteção
Foi se esconder atrás,  da cara de vilão
então
Não faz assim rapaz,
Não bota este cartaz
Que a gente não cai não,
Eh, eh ele não é de nada olha
Esta cara amarrada é  só
um jeito de viver na pior,
Eh eh ele nao é de nada olha
Esta cara amarrada é só
Um jeito de viver neste mundo de mágoas.

Custei a encontrar uma música brasileira que dissesse as coisas que esta diz.  Pode ser que aja outra, meu conhecimento pop não é tão vasto assim, mas pode ser que não ajam muitas mesmos em que os homens falam do seu íntimo. O Chico Buarque conseguiu falar das angústias com maestria mas e dos homens? Ele quase não fala… Será que os homens não tem angústias? O cara da cara amarrada é um macho no sentido brasileiro da palavra. Não sabe lidar com seus sentimentos, não sabe se entregar, não perdoa porque tem um orgulho a manter, não sabe retribuir. O amor pra ele é uni-lateral onde ele está na ponta que só recebe mas não sabe dar… Que pena. Dá dó deste macho. Mas macheza tem cura. Do mesmo jeito que o desvalor “búndico” da mulher brasileira também tem cura. Jesus nos restaura a nossa feminilidade e masculinidade plenas, saudáveis e belas, que se completam e se valorizam mutuamente.

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1 comentário

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Uma resposta para “Onde canta galo não canta galinha –

  1. Olá Braulia. Achei muito interessante esta explicação do machismo brasileiro. Infelizmente não entendiamos antes. Nossa filha (por ser americana) que esperava fidelidade do marido tem sofrida muito. Creio que o marido precisava ter um acompanhamento de discipulado muito mais forte antes de casar. Ou então um encontro com Deus muito mais forte. Mesmo assim, não perdemos a esperança no poder de Deus de transformar completamente não somente o coração mas também o comportamento.

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