Por que o brasileiro gosta tanto de títulos?

Quando o conceito de pessoa é o centro, a idéia de qualquer papel social está sempre ligada à idéia de posição e não de mera função. Deixe-me novamente parar para explicar que biblicamente, o exercício da liderança, ou do ensino, ou do pastorado não tem nada a ver com posição.Aliás nem existe biblicamente a “posição de liderança”. Existe a função de liderança. A idéia de posição está ligada com a idéia de pessoa, enquanto a Deus nos vê e nos trata na maioria das vezes como indivíduos. Digo maioria porque às vezes eles nos exorta a nos arrependermos dos nossos pecados sociais, neste caso temos que nos enxergar dentro do contexto social, como pessoas que somos. A idéia de pessoa presume uma hierarquia, um debaixo do outro, e com isto presume valores diferentes, estratificação. Assim, ó:

 

Líder
Sub-líder
Alguém-chegado-do-líder
Pobre-coitado zé ninguém

 

Como nos vemos como pessoas, estamos sempre nos vendo como alguém em relação a. Sou alguém ou ninguém em relação a quem eu conheço, quem eu lidero, o que eu faço como profissão que me dá status. Este pensamento é doente e pecaminoso. Não somos alguém ou ninguém, somos sempre alguém aos olhos de Deus. Ele não nos atribui menor ou maior valor de acordo com o que fazemos ou deixamos de fazer, ou com função que exercemos. Temos o mesmo valor diante dele, sejamos líderes ou liderados, pastores de uma grande igreja, ou membros da igreja. Não há hierarquia na liderança cristã. Existe liderança sim e existem diferenças de funções, mas não existe hierarquia, posição.

 

A Bíblia nos mostra Deus nos tratando como indivíduos. Ele olha para nós primariamente como seres naturais, e não como seres sociais. Por sermos indivíduos aos seus olhos Ele nos cobra posturas diferenciadas do que está ocorrendo ao nosso redor, com nossa família, como fez com Abrão, com Moisés, com Davi, com Isaías, com Jeremias e tantos outros. Não só isto mas outras declarações do Novo Testamento nos mostram que Deus nos vê numa esfera supra-social, não impedidos, ou ajudados por qualquer definição social que queira nos aprisionar.

 

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.”
Galátas 3:28

 


O líder não se encontra numa posição superior ao liderado nem em relação à sociedade nem em relação a Deus. Principalmente esta função não tem nada a ver com privilégios em relação a Deus. Se pensarmos assim temos que concordar com o sistema do papado, e admitir que algumas pessoas são o oráculo inquestionável de Deus na terra. Podemos falar por Deus, levar a palavra dele, mas ainda somos humanos. Nada nos eleva a condição de líderes inquestionáveis ou irrepreensíveis. Por mais espirituais que nos tornemos vamos sempre carregar conosco a condição humana limitada, e esta compreensão deve ter o poder de nos tornar humildes sempre diante de Deus e uns dos outros.

 

Infelizmente nossa igreja evangélica não revisou este conceitos. A maioria de nossa expressão de liderança reflete nossas origens católicas. Cremos na autoridade espiritual do mesmo jeito que os bandeirantes criam na autoridade do líder da bandeira. O líder, imbuído de uma “posição” na igreja passa a ter uma prerrogativa de papa sobre a vida dos fiéis. Passa a ser inerrável, irrepreensível oráculo. Afinal ele é o líder espiritual, o pastor, o líder da célula, ou o “discipulador” do outro irmão. Neste contexto nossa vida com Deus passa a ter outro intermediário entre Deus e nós além de Jesus, vivemos como bebês dependentes de um pai ou de uma mãe espiritual.
Haverá base bíblica para tal entendimento? De acordo com a Palavra de Deus não temos que ser bebês espirituais a vida toda. É verdade que um bebê precisa da mão de um pai ou de uma mãe humanos. Mas o plano de Deus para nós não é que vivamos como bebês a vida toda. Temos que crescer.
“Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento.”
Hebreus 5:12


O escritor de Hebreus neste texto exorta o pessoal a crescer. Quer vergonha, que criacisse vocês ficam toda vida no leite quando já poderiam estar sendo pais e mães de outros. Porque ficamos estacionados. A única razão possível para pararmos de crescer no entendimento é pararmos de nos relacionarmos com Deus. Ficamos mestres em receber apenas o mantimento mastigado e pobre, o suficiente para nos mantermos vivos, mas não queremos o confronto, o esforço da mastigação, o esforço de um relacionamento pessoal com Deus.

 

Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo; 3 Se é que já provastes que o Senhor é benigno; 4 ¶ E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.”
I Pedro 2:2-5

 


Nossa função quando maduros, segundo Pedro é sermos sacerdotes. Este conceito de um grupo de sacerdotes espirituais de mesmo nível na fé, acaba com a idéia do clero. O clero somos todos nós. Na cultura brasileira quando cometemos o erro conceitual de nos ver como pessoas e não como indivíduos vivemos debaixo do estigma da estratificação. Para a pessoa há diferença hirárquica, diferença de nível entre um irmão e outro. No entanto irmão do “clero espiritual” (seja ele um pastor, um discipulador, um pregador importante, um avivalista ungido) é uma indivíduo que na hirarquia de Deus não se encontra numa posição espiritualmente superior. Ele é igual a todos os outros, não tem mais privilégios que os outros diante de Deus, todos temos igual acesso à sua graça… Ele também não tem nenhum direito outorgado por Deus para ouvir a vontade de Deus para a vida de qualquer pessoa a não ser para ele mesmo. É verdade que ele possa ter conselhos, discernimentos, e visão. Mas ainda assim quem tem que tomar a decisão, quem deve saber ouvir por si mesmo, tendo neste escutar constante a prova principal de seu relacionamento com Deus, é o Zé ninguém, o novo crente, o jovem, a criança..

 

.
Não é maravilhosa esta realidade? Todos nós temos igual acesso á sua graça…

 

“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. 27 Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. 28 Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.29 E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.
1 ¶ Digo, pois, que todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo; 2 Mas está debaixo de tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai. 3 Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo. 4 Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, 5 Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. 6 E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. 7 Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo.
8 ¶ Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses.
Gálatas3:26-29, 4:1-8

 


Será que estas palavras poderosas da escrituras são capazes de nos limpar a mente nos livrando para sempre deste complexo de pessoas, e nos tornar indivíduos reais na presença dele? Espero que sim. O fato é que ele nos atribui valor inerente. Ainda que nossa cultura nos diga que adquirirmos valor através de beleza física, dinheiro, posição social ou até função espiritual dentro da igreja, a Palavra dele nos diz que somos todos iguais e não importa o que fizermos não vamos adquirir e nem perder o valor que temos para Ele. Somo todos filhos, herdeiros preciosos.

 

A saúde social que um conceito certo sobre liderança traz é enorme. Num ambiente onde os líderes entendem que são servos do bem comum e não algum filhote-de-messias-iluminado existe respeito entre as pessoas, existe liberdade e existe crescimento.

 

Num ambiente assim títulos não são necessários, pelo contrário se tornam um emblema ridículo e vazio. O brasileiro gosta de títulos quando ele vive de acordo com o sistema social da pessoa e não do indivíduo. Uma pessoa precisa de uma aprovação de um valor atribuído a ele pela sociedade à parte do que ele já se sabe e se conhece. Ele precisa se provar para os outros. O indivíduo que já recebeu um banho mental de valor, que recebeu de Deus a atribuição principal de seu valor pessoal não precisa provar nada para ninguém.

 

Uma vez eu estava num culto dirigido por alguns apóstolos, destes que se entitulam apóstolos da igreja neo-pentecostal brasileira. Me deu tristeza ver tanta pompa e circunstância que poderia ter sido direcionada para Deus para o ensino honesto e despretencioso da Palavra, ser usada para glorificação de homens. Alguns deles que creio serem pessoas sinceras, ainda que envolvidas por esta cultura do personalismo, se batiam para se acostumar com a titulação: “Fulana, opa, quero dizer apóstola, me desculpe gente entre nós a gente se chama pelo nome…” Adoeci com esta balela. Entre eles são de igual nível, só se diferenciam de nós vis mortais não agraciados por Deus por títulos de nobreza… Me deu dó, ver líderes cristãos, tão distanciados da verdadeira humildade de Cristo…

 

Será que você depois de ler isto vai estar mais consciente do seu valor? Jesus morreu por você, intercede por você, se alegra em você, quer ouvir seu louvor, suas orações, suas declarações capengas de amor…

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1 comentário

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Uma resposta para “Por que o brasileiro gosta tanto de títulos?

  1. Os apóstolos se tratavam pelo nome. Os bispos e diáconos, eleitos pelas congregações, eram tratados pelo nome.
    Foi quando Inácio, em 110 d.C., bispo de Antioquia, resolveu que os bispos eram os sucessores dos apóstolos. Em cada cidade, apenas uma igreja, com um só bispo. A hierarquia era bispo-pastor-diácono. Os demais bispos das outras cidades concordaram. Estava plantada a semente da hierarquia na igreja que culminaria com o concílio convocado por Constantino. A hierarquia unia a igreja e o Estado. E manteria durante séculos, de diferentes formas. O mover apostólico genuíno, não hierarquizado pode devolver a dinâmica da igreja do 1º século, rasgando as hierarquias denominacionais e refazendo o relacionamento com os demais sub-sistemas sociais.

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