Garra para vencer sem honra

Esta coisa da esperança intrínseca pode ser lida em inúmeras artes brasileiras e principalmente na música. Como disse mais atrás a música de um povo é uma janela para se enxergar sua alma. Temos uma alma individual e uma alma em comum com todos que compartilham nossa cultura, falam nossa mesma língua, cresceram embalados pelos mesmo cânticos, ou pela mesma falta deles. E nesta aventura de se decifrar a alma coletiva da cultura os poetas e músicos são campeões. Leitores de alma, profetas, raios-xs de nosso íntimo, quando eles cantam desnudam nossas alegrias, desejos e misérias.

 

Isto não exclui os poetas não crentes. Pelo contrário, no mundo cristão falamos de nossas orações, louvamos e cantamos a salvação. Mas pouco falamos de angústias, pouco nos deciframos em nossa complexidade psico-cultural. Santidade? Mandamento bíblico? Creio que não. Veja os salmos de Davi por exemplo. Nossa falta de profundidade é produto do vício de uma cultura evangélica imediatista, umbiguista e aleijada culturalmente. Para conhecermos nossa alma brasileira temos que recorrer a outro músicos que geniais, não foram podados em sua capacidade de profetas do eu-social brasileiro.

 

Quem nasceu na década de 60 ou até 70 se lembra ainda da música dos monstros sagrados Chico e Caetano, da voz que abrange o mundo de Milton Nascimento, de Belchior e de seu estilo inusitado, na época que a MPB pensava ainda com a cabeça e com a alma não com o traseiro.

 

Tem alguma coisa na expressão musical de um povo que é como se fosse uma janela especial para a alma humana, para sua alma social inconsciente. Uma espécie de expressão do “inconsciente coletivo”, uma representação melódica que está presente nos sonhos esperanças e desilusões do povo… Que mulher que nunca se sentiu “denunciada” ao ouvir as músicas de Chico Buarque, que quando canta as entranhas femininas, nos conhece melhor que nós mesmas? Ou hoje em dia quem não se comove com as denúncias de Chico César em “Mama África”, ou as de Carlinhos Brown em “Segue o Seco”?

 

Muitas músicas maravilhosas e reveladoras me vieram à mente quando orava para escrever este livro. Algumas sedutoras e tristes, outras cirúrgicas precisas me prescrutando a alma, me diagnosticando sem pudores e sem máscaras. A música de Belchior “Sou apenas um rapaz Latino Americano” é uma destas. Traz consigo uma das melhores definições que já vi da alma brasileira, da auto-imagem do rapaz Brasil. Quem somos? Estamos à procura de saber; mas enquanto não nos encontramos é assim que nos vemos:

 

“Eu sou apenas um rapaz latino americano,
sem dinheiro no bolso,
sem parentes importantes e vindo do interior…
Mas trago de cabeça uma canção do rádio
onde um antigo compositor baiano me dizia:
tudo é divino, tudo é maravilhoso…”

 


Somos um país jovem. Não temos tradições milenares como a China, Grécia, Itália ou até países latinos como o Peru e o México. Nosso passado não vai além dos 500 anos, num sinal claro de que a colonização européia aqui literalmente matou qualquer passado que pudéssemos ter, como aconteceu com os Estados Unidos.

 

Inseridos no meio de um continente pobre e contraditório na verdade hesitamos um pouco para nos sentir parte dele. Não falamos espanhol como “eles” e nem temos uma gritante herança indígena como “eles”. Os poucos de nós que trazem na pele e no rosto esta herança, tentam encobrí-la numa máscara de auto-negação. Mas não há como não se render ao fato de que somos latino-americanos, mesmo que a contra-gosto.

 

Nós brasileiros pobres trabalhadores não temos mesmo dinheiro nunca, ou nunca temos o suficiente. O que às vezes nos valoriza é quem conhecemos ou de quem somos aparentados. Buscamos desesperadamente um valor que não cremos pertencer inerentemente a nós, nos relacionamentos com gente que cremos sim ter algum valor… Daí a cultura do apadrinhamento, do pistolão, do “fidalgo”, ou filho de algo.

 

Além de tudo carregamos nossa condição provinciana em relação ao nosso próprio progresso e em relação ao mundo. Estamos sempre extasiados diante do novo, maravilhados com um bichinho virtual, com um modismo de praia, com carrões importados, os “Roland Garros” de Guga, o namoro de Gisele Bündchen com Leonardo de Caprio, a aparição relâmpago do Rodrigo Santoro no estúpido filme das Panteras, como se estes “píncaros de sofisticação globalizada” pudessem nos redimir de nossa latinidade. Ser provinciano faz parte de nosso comportamento mais previsível. Como já disse Fernando Henrique Cardoso: – “o brasileiro é um caipira”, num comentário auto-crítico recebido como um xingamento pela mídia brasileira. Pura bobagem. Saber-se caipira é um reconhecimento natural da nossa condição.

 

Mas com todas estas contradições, apesar deste desvalor contraditório ainda temos uma esperança lá dentro. Esperança em quê? Como a música do rádio, um dia bonito nos faz otimistas, uma eleição, um “impeachment”, um lula, ou três fernandos, um bilhete de loteria, um penta, um penâlti. Estamos certos de que tudo é divino, tudo é maravilhoso… Agora que nosso torneiro mecânico chegou lá, e desfila com a desenvoltura característica de nós caipiras pelos congressos internacionais que pretendem salvar o mundo, temos mais esperança ainda. O Fernando, era mulato, mas mulato estudado. Agora temos um autêntico representante de nossa caboquisse criativa e verborrágica no planalto.

 

O Milton com sua Maria Maria nos traz uma pintura expressionista desta nossa força esperança. A mulher Maria na voz de Elis, é a mulher luta, a mulher-mãe que vive à custa de esperança somente, à míngua de qualquer outra emoção, é vida e morte, alegria e tristeza, santa e prostituta de uma vida de dor transformada em alegria, de pranto e música de fé e luta amarga, fé e fel.

 

Maria, Maria é um dom é uma certa magia,
É uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer no planeta…
Maria Maria é um som, é a cor, é o suor
Uma dose mais forte e lenta,
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive apenas agüenta.
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre…
Quem traz no corpo esta marca Maria Maria
Mistura a dor e a alegria.
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele esta marca
Possui a estranha mania de ter fé na vida…

 


Podemos ver em nós a gente do Maria Maria, da força que nos alerta, o povo da marca que nos transmite a estranha mania de ter fé na vida. Nossa alma brasileira no fundo é feminina, a alma de todas as mulheres e homens que geraram o país que somos.

 

Talvez não seja tão fácil concordar com esta declaração. O que faz um país ter uma alma masculina ou feminina? Não sei, mas tenho assim aquele sentimento que é quase impossível de ser posto em palavras, que me diz, os homens que me desculpem, do nosso cheiro almífero de mulher. Alguma coisa na atitude. Parece que somos uma donzela esperando ser resgatada por um benfeitor de além mar. Ora este benfeitor é o FMI, ora é o mercado comum europeu, o capital estrangeiro a ser investido em nossas terras, ora é modernidade que toma ares de entidade quando citada por nossos economistas. Nossa política interna e externa é uma política de mulher lesada, daquela que se dedicou anos a um marido infiel e por fim foi deixada por ele. Parece que estamos sempre buscando o que “nos é devido”. É atitude de país colonizado, lesado sim desde a sua concepção, mas que teimosamente, amargamente, e inconscientemente, mantém esta ferida em si, ainda quinhentos anos depois. Somos femininos também em nosso romantismo, nossa certeza ilusória de que um dia “daremos certo”, e principalmente na nossa passividade em relação à esta certeza.

 

Isto é o Brasil, isto somos nós, pobres mas esperançosos, pessimistas mas otimistas, numa eterna busca de algo que talvez sabemos no fundo que não vamos achar: Como o Chico canta em Pedro Pedreiro:


“Pedro não sabe mas talvez no fundo,
espere alguma coisa mais linda que o mundo,
maior do que o mal, mas pra que sonhar.…”

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5 Comentários

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5 Respostas para “Garra para vencer sem honra

  1. Bom dia Braúlia! Tudo bem?

    Por favor me envie um e-mail para contato.

    Abraços

  2. Bráulia!

    Sempre li seus textos na Ultimato e sempre procurei saber sobre os “seus livros”.

    Como eu esperava ouvir alguém dizer tão bem fundamentadamente o que você está dizendo neste livro! E como me sinto feliz em descobrir que não sou a única com esses pensamentos “estranhos”.

    Não sei como serão os textos que virão, mas se seguir na mesma linha… eu não acho, eu tenho certeza de que outras pessoas após ler o seu livro se sentirão muito mais seguras em expressar sua voz abafada por anos e anos de opressão, de colonização, de exploração. Pelo menos é assim que estou me sentindo.

    Parabéns! Esse seu estilo é único no nosso meio que convenhamos carece demais de mentes femininas se expressando.

    Um grande beijo,

    Rossana

    Ps. Já coloquei o link do ódoborogodó no meu blog!

  3. Querida Bráulia!

    Passei pra desejar um feliz natal e pedir pra você postar logo, que a gente tá esperando.
    🙂

    Bjo.

  4. Não tenho nem o que falar, falou e disse… perfeito!!! Post do fundo da alma…
    bjos Deus abençõe vc!

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