Mais uma digressão pessoal

Digressão é mudar de assunto, necessária para ainda ficar no tema: Pelados, mas santos, por uma teo-filo-missio-antropo-socio-logia sem ataduras culturais


Enquanto eu caminhava pela mata, nos sobes e desces poças e troncos meu espírito se angustiava. Meus companheiros de caminhada são dois colegas de missão, um casado com uma de minhas melhores amigas, outro solteiro recém-chegado, estrangeiro, que conheço pouco. A possibilidade de ter aqueles olhares masculinos sobre meu corpo nu, me incomodava profundamente. Para os índios a nudez é parte da vida, como eu já disse uma sociedade nua pode ser até mais honesta, os traseiros são rostos, e como nos rostos o refletir do tempo não são uma vergonha, mas uma honra. Mas para nós animais urbanos pós-modernos cidadãos do país campeão mundial em implantes de silicone não é assim.

“-Sempre me meto em confusões, porque eu tinha que inventar esta visita, os índios nem se importam comigo, sou mulher e mulher não vale um tostão, se fosse o Reinaldo seria melhor, ele é forte, eles iriam gostar de revê-lo, mas eu, tô por fora, não posso nem cantar como pajé porque mulher não canta, houve só uma há muito tempo atrás… E agora vou ter meu traseiro exposto pra estes caras… Suprema humilhação, se eu fosse homem nem iria ligar, mas sou mulher e meu traseiro tem que ser uma espécie de patrimônio pessoal…. Quem sabe eu deveria ter feito implante ou lipo, esta vida de missões, nunca se tem tempo ou dinheiro para se cuidar de si mesmo…”

O sentimento de inadequação me sufocava. Dizem que a floresta absorve muito mais gás carbônico do que é capaz de expelir, e o oxigênio é abundante. Mesmo assim ela vai se tornando numa caverna escura na medida que se entra nela, e te envolvendo com um sentimento claustrofóbico imenso. Uma outra mulher da missão ia comigo, mulher de Deus também casada, alguns anos mais jovem e que anda investigando a luta contra as injustiças sofridas pelas mulheres ao redor do mundo. Não liguei as coisas, não entendi o que estava acontecendo, só continuei a me lamuriar pelo que teria que passar, e a questionar a validade de meu ministério ali.

Na verdade o sentimento de inadequação já me perseguia há algum tempo, desde que há alguns meses atrás assumi o posto de presidente nacional da missão. A partir daí passei a viver como um condenado diante do pelotão de fuzilamento. Um gesto fora do lugar, uma palavra, um grito e pumba, pápápápá, seria o fim… Porquê? Sou mulher. Carrego o mundo no ventre, gero o mundo. Ali na selva todo este sentimento injusto de cobrança se tornou no pavor concreto de ser vista nua. Ficaria nua não só no corpo, mas no caráter, no ministério, na personalidade, na espiritualidade. Seria vista no raio x, eu mulher, mais branca do que deveria, mais pesada do que deveria, imprópriamente mulher no mundo da supremacia masculina.

Foi no meio de uma trilha completamente alagada que a voz de Jesus começou a sussurrar no meu ouvido. Mais de meia hora com água pela cintura, cruzando um igapó, (mata submersa) carregando a mochila mais alta para não molhar e fincando uma vara pontuda na lama à frente antes de pisar para ter certeza de que não haviam arraias deitadas esperando para enterrar seu ferrão nos nossos pés. O frio da água, a lama dificultando os passos, a sombra do igapó e a voz de Jesus me dizendo: “Fica triste não minha filha, eu te enviei. Você é mulher mas não é inadequada. É como mulher que você vai pisar lá, emissária da minha palavra. Me lembrei de minhas colegas de missão que por muitos anos trilhavam aquele mesmo caminho carregando nas costas seus filhos para ir viver na aldeia. Pensei em toda revelação do amor de Deus que elas representavam como mulheres do mundo de fora, estrangeiras aquela realidade indígena pisando ali, orando ali, cantando, vivendo Jesus e seu amor pelas viúvas e orfãos da tribo, pelas meninas adolescentes, pelos garotos.

Mulher, mas não inadequada, acho que repetia em voz alta, enquanto dava meus passos desajeitados na lama. Chegamos depois de quase seis horas de caminhada pesada. Revi minhas amigas antigas, vi as viúvas, as velhas e as novas adolescentes casadoiras. Conversamos principalmente sobre sexo e comida (este é o principal tema de conversas em todo mundo creio eu, e na tribo também). Pedi uma tanga emprestada, veio o ritual da pintura, com leite de peito e cuspe. Veio a nudez, e ela me caiu bem. Via os colegas de missão há alguns metros de distância um tanto constrangidos. Via a alegria de minhas amigas indígenas e como celebraram minha chegada, meus seios à mostra, mas não me envergonhava mais. Não sou inadequada. Estava ali por Jesus.

Minha colega tomou coragem na minha coragem e também se desnudou. As meninas da tribo então nos tomaram pela mão e nos levaram para uma outra casa comunitária próxima onde celebramos longamente com muito canto, choro, orações a presença de Deus no nosso meio, no meio do povo, seu consolo para os corações cansados, seu perdão para os corações amargurados. Tomamos autoridade de pajés espirituais, mesmo que para aquela cultura não fosse totalmente apropriado mulheres fazerem isto. Para Deus eu era.

Na volta um dos companheiros disse que não precisávamos ter ido tão longe. Me desculpe colega, mas vou até onde Jesus vai comigo. E ele foi além da vergonha da nudez para a vergonha da cruz… Quando Pedro resistiu contra a necessidade de Jesus ir para Jerusalém para morrer, eu também resisto às vozes religiosas que diminuem a amplitude do sacrifício e a ousadia necessária na obra missionária. Eu havia me desnudado não só no físico, mas do meu machismo. Eu era machista e pequena aos meus próprios olhos e não sabia. A doença do machismo estava oculta na mente de uma mulher que representa o conceito quase que oposto a ela.

Eu precisava ir “tão longe” e o povo também precisava de me ver ali encarnada de índia, literalmente. Não sei se os que lerem vão entender o que quero dizer. Acho que tem a ver com ser mulher, e sentir nua neste mundo masculino, e do valor que temos diante de Deus apesar de tudo… É isto.

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Direto do púlpito da pregadora Rita Lee

Estariam a Rita Lee e a Zélia Duncan sendo cristãs ou pagãs quando compuseram, Pagu e aí voltamos à Maria Rita que cantava Pagu no meu ouvido com toda ginga naquele dia de pedalada. A letra que segue mais ou menos assim, e me desculpem por não omitir as palavras mais chulinhas da letra, mas letra é letra e foi a Rita Lee escreveu, então dá um desconto aí:

 

Pagu
Mexo e remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que ser carvão
Eu sou pau pra toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta
Não sou freira nem sou puta
Porque nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homi…
Ratatá
Sou rainha do meu tanque
Sou pagu indignada no palanque
Fama de porra-louca, tudo bem
Minha mãe é Maria-Ninguém
Não sou atriz modelo dançarina
Meu buraco é mais em cima

A música fala de Pagu, revolucionária feminista do início do século passado, mas não creio que seja um grito feminista.
Tenho que explicar isto porque o feminismo é muito mal visto pelas rodas evangélicas. Na verdade qualquer “ismo” é ruim  porque ter um ismo no fim significa absolutizar o que vem antes e ninguém pode ter esta honra nas nossas mentes a não ser Deus… Mas a origem do feminismo foi uma necessidade genuína de mudar a injustiça e discriminação social que a mulher sofria!! Deveria ser uma preocupação cristã esta não é? Ainda hoje mulheres sofrem abusos horríveis em todo o mundo. 130 milhões de mulheres são mutiladas pela prática da circuncisão. Outros milhões são mortas anualmente por infanticídio ou aborto na China só por não serem homens, e por aí em diante. Isto não está certo.Quem deveria estar chorando por estas mulheres somos nós, cristãos, que sabemos que diante de Deus não há grego nem judeu, nem macho nem fêmea, mas todos temos igual valor…
Um texto de Pagu: “A mulher de todos os séculos civilizados só conheceu uma finalidade – o casamento. O seu lugar ao sol, agasalhada pela sombra viril e protetora de um homem que se encarregasse de todas as  iniciativas. Todos os anseios e necessidade paravam neste ponto, com o conseqüente sofrimento incluído no contrato”.
A música trata da mulher se descobrindo e descobrindo seu valor. Não vivo para ser a tetéia de ninguém tenho valor intrínseco, não sou o que os estereótipos culturais dizem que sou (p…, modelo, dançarina, feiticeira, etc.) Mas sou o que tenho que ser, Maria, rainha ainda que sobre um tanque, vitoriosa, forte e cheia de garra… Bonito não é?
Enquanto escrevo isto estou com meu notebook sentada no meio de platéia que assiste a um fórum sobre a violência sexual contra a mulher. A maioria da platéia é feminina. Todos os palestrantes são mulheres. Apesar de estar sendo hospedado na sede do sistema judiciário do estado, é a primeira vez que o fórum acontece num âmbito mais abrangente e há alguns magistrados presentes. As palestrantes seguem citando leis inumeráveis que não são conhecidas do povo na sua maioria, e muito  menos cumpridas. Na medida que começam a falar um peso esmagador desce sobre todos, como se estivéssemos tentando impedir o inexorável, ou tendo diante de nós a tarefa de cumprir uma missão impossível sem a presença do Tom Cruise.
Observo também na platéia que várias mulheres seguem a moda local, calças apertadas, tangas delineadas, por trás da lycra das calças, grandes brincos, grandes decotes, até as gordinhas. Trouxemos também o nosso grupo de jovens. No último fórum como este este, meu marido participou sozinho numa salinha da cooperativa médica do estado, único homem presente na primeira parte, depois convidou um amigo magistrado para a segunda parte, por isto hoje estamos aqui na sala chique e ar-condicionada do poder judiciário. Este magistrado é um cristão sério e que abriu os olhos para suas responsabilidades missionárias dentro de seu cargo. Quer trazer com o convite uma consciência mais profunda da seriedade do problema para os juízes do colégio que lidera.
Vejo alguns cristãos na sala, uma médica, um pastor, e nosso grupo jocumeiro sempre inadequadamente hetereogêneo. Um pagodeiro carioca, um boliviano índio, um paulistano alto, e várias moças de vários estados diferentes e passados dos mais diversos. Algumas segundo eu sei através da convivência e aconselhamento, sofreram abusos na infância, outras viveram da prostituição até antes de se converterem. Uma delas saiu da rua ontem, e com certeza está inquieta passando por uma crise de abstinência de mela, a borra da cocaína, droga extremamente popular nestas paragens…
Na hora das perguntas, não sabemos o que dizer. As palavras morrem prematuras na garganta, as idéias se encolhem fetais no meu cérebro. As possíveis soluções parecem tão distantes quanto o tempo em que o leão e o cordeiro que brincarão juntos.  Formulo devagar uma idéia e me expresso de maneira confusa,  mas parece que atinjo a preocupação comum à maioria de nós leigos presentes. Mulheres são abusadas pelos maridos, sofrem violência, adolescentes engravidam cada vez mais cedo,  o lugar mais comum para os abusos sexuais é o próprio lar das crianças, tudo isto são sintomas de uma sociedade doente, erotizada no cerne.  Como lutar contra uma corrente tão forte de erotização precoce, como impedir o genocídio moral que a mídia brasileira pratica contra esta geração de jovens? A  violência, a gravidez precoce, os abusos são apenas sintomáticos. A razão de tudo é o desvalor da vida, da mulher, a idolatria do sexo,  a erotização como fonte de afirmação existencial…
De volta à Rita Lee, o grito de Pagu, calou forte no meu coração. Porque ainda nós cristãos não fizemos um corinho assim? Um hino, um mantra evangélico qualquer, uma declaração de louvor diante de Deus pela maneira maravilhosa com que Ele nos fez?   Porque ainda não dissemos nada nós mulheres cristãs sobre o nosso valor, que transcende a integridade de nossos traseiros, sobre nosso coração valente que carrega este Brasil desde sua formação que mostra que mesmo sem a presença do silicone, somos mulheres de muito peito…
É cristão dividirmos homens de um lado mulheres de outro, para evitar contatos não santos durante nossos santos cultos? O verdadeiro Cristianismo deixa as mulheres livres, não impõe usos e costumes?… O verdadeiro crisitianismo deixa as mulheres livres exporem as partes corporais que bem lhes entende, e ainda assim adorarem santamente nos santos cultos? Ou é mais cristão nem discutirmos nada disto nos nossos santos cultos e continuarmos pregando sobre a Bíblia como se vivêssemos na lua e não no planeta terra? É mais cristão ignorarmos as questões sociais e culturais e tentarmos apenas lutar para educar evangelicamente nossa própria comunidade cristã? Esta sob a minha  reponsabilidade a adolescente paulista-carioca-gaúcha  filha de pais separados que assiste malhação todo dia e transa sem camisinha com o namorado, mesmo que ela não seja crente, nem more em Rondônia? É minha resposabilidade brigar com o Gilberto Braga ou com Manoel  Carlos portadores de óticas morais  tortas, banalizadores profissionais de perversões e pecados?
Devo ver ou não ver novela? A Maria Clara de Malu Mader é  a mesma Helena da Cristiane Torloni que foi a mesma Edviges,que é a mesma Débora Secco,  E Helena da Vera Fisher, que é a própria Vera Visher, perturbada por tanto poder sexual que lhe foi dado por Deus (???) mas ao mesmo tempo com tão pouca capacidade de ser amada, e de amar,  de gerenciar dignamente a criação de seus filhos, o desgaste do tempo nos relacionamentos, a felicidade de se ser simples e comum. É mais crente não me saber parte desta mesma geração de mulheres conflituadas por cobranças impossíveis de serem atendidas, atormentadas por seu principal algoz, seu próprio corpo. Não sabê-las, me torna livre delas?
Acho que infelizmente não. Não sabê-las me torna mais vulnerável. As copio sem saber, porque elas ditam moda. Internalizo seus valores, porque estão presentes nas amigas, nas músicas, nas aspirações dos homens que nos cercam, nas decisões tomadas na igreja sobre quem fica na frente na hora do coral, ou de como a mulher do pastor deve arrumar seu cabelo, ou que tipo de calça ela vai usar nos cultos quando estiver orando, do tipo que marca a tanga ou do tipo que não marca, e a deixará com o perfil traseirístico da sua avó, o que certamente a faria se sentir desconfortável no meio de tantas dirigentes de louvor transpirando sensualidade.
Começei o capítulo com a proposta de discutir quem somos. Quem somos nós brasileiros e cheguei a quem é a mulher brasileira e com isto posso até fazer um raio x de mim mesma. Uma situação  que vivi me ajudou a entender um pouco mais.

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I. QUEM SOMOS? Mitos de origem que revelam nossa identidade

 

Eu e meu bumbum, meu bumbum e eu, meu bumbum sou eu?

A mulher brasileira e sua crise de identidade

Pedalando um dia para perder peso (ato e preocupação tipicamente pós-modernos) na estradinha barrenta na beira do rio onde moro, passei na frente de uma igreja da Assembléia de Deus, construída de madeira mas ainda tipicamente desenhada com a torrezinha na frente a porta larga e a pintura azul turquesa. É uma igreja de poucos anos, nossas equipes evangelizando pelas redondezas ajudaram a abrir, assim como outras de denominações diferentes há poucos quilômetros de distancia na mesma trilha ribeirinha.

Nada seria estranho na cena se não fosse domingo. Era domingo de manhã. Tenho que explicar que a igreja que eu freqüento, não tem escola dominical senão provavelmente alguns já se indisporiam com meu Cristianismo além do necessário. Lá vou eu minha roupa de ginástica, um tanto apertada, CD player no ouvido a todo vapor com o novo disco da Maria Rita. Aliás o CD player nem é meu é do meu filho de 12 anos, e faz pouco tempo que descobri o prazer que há em isolar-se do mundo com música digital no ouvido.

Passei na porta da igreja e o culto ia a todo vapor. Homens de um lado, mulheres de outro, camisas de manga comprida de colarinho nos homens, apesar do calor, mulheres bem vestidas nas suas saias de domingo. Eram poucos, e no relance que captei na minha passagem ciclística, estavam de pé, de mãos estendidas uns para os outros orando.

Eu tinha tempo, e apesar da Maria Rita, fiquei pensando naquelas orações. Posso dizer que as conheço bem, missionária que fui junto com a Assembléia, de coque e tudo, por cerca de um ano no nordeste. São orações intensas, cheias de vida, mas que como todas orações de todos os grupos religiosos, por difícil que nos pareça esta afirmação, seguem um determinado padrão cultural.
Que diferença haveria entre mim, a crente pós-moderna, escutando música categorizada como “música do mundo” por uma grande parte dos cristãos evangélicos, e aqueles irmãos ali de mãos estendidas, reproduzindo no meio da Amazônia fielmente a cultura aprendida e passada de geração em geração desde o início do século passado? E aí apesar de parecer não quero com isto fazer nenhuma crítica, ou julgamento de valores sobre os irmãos da Assembléia. Não me senti nem me sinto melhor do que eles. Até pelo contrário minha tendência religiosa é me sentir acusada ali naquele momento, pedalando ao invés de estar em algum culto impondo a mão sobre alguém, mesmo sabendo que minhas horas de pedaladas são sempre horas maravilhosas na presença de Deus.

É claro que esta discussão começa com o conceito de Cristianismo e identidade cristã. Ser cristão será viver debaixo da obrigação de seguirmos uma determinada cultura considerada cristã, ou pode haver um Cristianismo livre para descobrir e reformar sua própria cultura, livre para seguir a essência dos ensinos de Jesus e independente das referências comuns da cultura evangélica? Jesus era evangélico? Se ele estivesse vivo hoje seria ele um pastor evangélico? Será que ser cristão conflita diretamente com o ser brasileiro? Posso continuar sendo brasileira e ainda assim refletir Jesus?

Será que existem hábitos, costumes e comportamentos que pertencem ao nosso evangelicalismo, mas que não pertencem ao Cristianismo? Quem é a mulher brasileira e quem é a mulher cristã brasileira? Qual é a diferença entre as duas?
O Cristianismo que não questiona que não pergunta, repete e copia. Copiamos formas vazias, repetimos padrões antigos, pecados e conceitos antigos. Somos fora de moda até nos pecados que cometemos.
Foi aí que parou meu pensamento diante da igrejinha de madeira.

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O papel da cultura e da mente na nossa vida

Como detesto perder tempo, e fazer você perder o seu, tenho que explicar porquê escrevi este livro. Escrever é um trabalho solitário, assim como ler. Estamos unidos, eu que escrevo, você que lê, mas num espaço virtual, em algum do tempo passado-presente, unidos e até íntimos às vezes, mas na verdade estamos sós. Para justificar tanta solidão há que se ter um bom motivo, há que se ter uma pretensão qualquer, uma razão especial, uma curiosidade, uma sede de saber, ou de comunicar algo novo.

 

Minha pretensão para este livro é enorme. Tenho até vergonha de admitir isto. Não me considero uma pessoa pretensiosa, e já tenho perguntado várias vezes a Deus se Ele concorda comigo nisto. A resposta na maior parte das vezes é um silêncio constrangedor, acho que a opinião dele deve ser um pouco diferente da minha.

 

Mas por favor me perdoem se minha pretensão não chegar à altura da coisa comunicada, se o livro ficar aquém do que você espera, se você ficar de saco tão cheio lá pelo meio das páginas e quiser se jogar fora do mundo, ou me jogar fora do mundo. Minha intenção é que você leia até o fim, assim como eu pretendo escrever até o fim. Mas também tenho a intenção de que você permaneça tão cheio de perguntas sobre o assunto no final quanto eu. Gostaria de te inchar o peito de questões desesperadas sobre a sua identidade brasileira, assim como eu me sinto agora no momento da criação do livro.

 

Livros não devem pretender esgotar assuntos. Digo que minha pretensão é grande, não porquê tenha encontrado respostas, mas porquê a pergunta é que faço é de grande escopo. Escopo pra quem não sabe quer dizer campo de assunto, amplitude. Pois é, voltando ao assunto, a pergunta é muito grande.

 

Carrego esta pergunta dentro de mim desde que comecei a dar as minhas primeiras nadadinhas para fora do aquário-prisão que é nossa cultura brasileira. Na verdade toda cultura humana funciona como uma espécie de aquário-prisão, não se ofenda se eu chamar nossa cultura brasileira assim mas não tem jeito. Ao mesmo tempo que é em nós e através de nós a glória de Deus refletida no verdadeiro, no belo e no bom em tudo o que temos e expressamos, a cultura é também nossa miséria, nossa infâmia, nossa cegueira. Contraditório, não? Pois não tem outro explicação, somos a glória de Deus em vasos de barro. Sejamos nós japoneses, italianos, elegantes franceses, fortes e corajosos bantos, somos todos uns prisioneiros de nós mesmos, dos conceitos errados que nos foram passados por nossos antepassados, e pelos não tão antepassados assim, pai, mãe, irmão, irmã, amigo, amiga, pastor, cachorro… Ôpa, por favor, não entendam que pastor e cachorro se encontram na mesma categoria…
Para continuar explicando, tenho que primeiro dizer o que quer dizer a palavra cultura no contexto deste livro. Sem que a gente tenha que entrar em todas as definições cansativas sócio-antropológicas, é necessário explicar esta palavra para que entendamos também a dimensão de nossa prisão dentro dela.

 

O que é cultura? Conjunto de comportamentos, crenças e idéias características de um povo, que se transmite de uma geração para outra e que resulta na história do povo, na formação de sua sociedade e na perpetuação de seus valores.
Toda comunicação humana se faz através da cultura. A cultura define as idéias usadas para se articular as palavras, os valores que elas expressam, a maneira de falar, a distância com a qual se posicionam os falantes um diante do outro, o tom de voz, e até a dinâmica de mudança constante sofrida pela língua em si.

 

Nossa religião está sujeita a nossa cultura. Como? Ah, a religião talvez, mas nosso relacionamento com Deus não… Não mesmo? Então me explica a hitlerização da Alemanha protestante, ou o Aparteid da África do Sul reformada. É infelizmente estas aberrações sócio-políticas surgiram em contextos culturais onde a Bíblia era o principal centro de referência moral. Onde mora o problema, na Bíblia, ou na cultura que interpreta a Bíblia?

 

Para se comunicar com os escritores da Bíblia, a revelação de Deus teve que passar por várias camadas culturais também.

 

Deus –> cultura local –> cultura familiar –> cultura pessoal

 

Para chegar até nós a revelação de Deus que vem destes escritos também tem que atravessar muitas paredes que barram a compreensão humana.

 

época bíblica –> agora–> cultura pessoal

A cultura da época bíblica de onde a revelação vem, a cultura religiosa e geral da nossa época, e nossa cultura pessoal, e o conhecimento e experiência que nós mesmos temos da vida, tudo isto interfere em nossa maneira de nos relacionarmos com Deus, e em como lemos e aplicamos sua palavra a nossas vidas.

 

Esta interferência cultural pode casar ou não com os princípios que a Bíblia propõe. Se a cultura é semelhante os princípios bíblicos são reforçados, se é conflitante, a luta corpo a corpo entre a Palavra de Deus e a cultura pode levar várias gerações.
Em momentos de intenso avivamento espiritual os princípios fluem da dimensão espírito para o contexto da igreja com facilidade. Mesmo sem que estejamos cem por cento conscientes o Espírito de Deus se encarrega de ensinar o amor, de se desvincilhar de certos preconceitos culturais, a graça de Deus nos alarga a mente e o coração. Mas momentos assim não são a rotina são excessão. No dia a dia de nosso casamento com Deus, cozinhamos, passamos, lavamos nossas roupas sujas, vestidos de avental e chinelos. É aí que devemos trabalhar para deixar a casa (de nossa cultura) limpa e reformada. A rotina da vida da igreja deveria ser uma rotina de lavagem mental, mente alvejada com k-boa (água sanitária, cândida, clorox, etc., ops olha a dona de casa falando) a cada dia para se livrar das nódoas de distorção conceitual, da impureza de comportamentos apodrecidos por idéias-mãe mais podres ainda.:

 

É a este processo que Paulo se referiu em Romanos:

 

“E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.”
Rm 12:2

 


Infelizmente fazemos muito menos disto do que deveríamos fazer. Aliás, pior ainda, nos ocupamos mais de fazer o contrário, fazer com a vontade de Deus se conforme ao mundo ao nosso redor, se amolde às necessidades criadas por nossa cultura. Isto se chama em antropologia de sincretismo. Nos ocupamos em tornar nosso evangelho cada vez mais sincrético para que fique também mais saboroso para os não crentes. Fiasco.

 

O livro vai tratar disto. Quais são nossos principais podres brasileiros? Como podemos nos curar deles sem deixar de ser brasileiros? Como podemos nos livrar de conceitos errados que atrapalham nosso evangelho, e que tiram a força de nossa palavra? Como podemos ser mais que simples religiosos, como podemos nos tornar reformadores poderosos da nossa sociedade?
Para chegarmos a algumas respostas vamos ter que andar pelo caminho da arte que nossa cultura produz, música, literatura, pintura, etc. Na arte é que conseguimos ver a alma da cultura. Espero que você não apenas goste do exercício que vou propor, mas que se torne um mestre nele…

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Indice

I. INTRODUÇÃO
O papel da cultura e da mente na nossa vida
II. QUEM SOMOS?
Eu e meu bumbum, meu bumbum e eu, meu bumbum sou eu? A mulher brasileira e sua crise de identidade II-12
Das diferenças culturais, da Maria Rita e da igrejinha de madeira II-12
Entre bailarinas, e sado-masoquistas difarçadas de tia II-14
Mais uma digressão pessoal (digressão é mudar de assunto, necessária para ainda ficar no tema): Pelados, mas santos, por uma teo-filo-missio-antropo-socio-logia sem ataduras culturais II-18
Machos do saco roxo II-22
A pressão e opressão sobre o homem brasileiro II-22
Comandante, capitão, tio, brother, camarada… II-29
O brasileiro e a inserção social II-29
O pecado mora ao lado, ou na cultura? II-32
O individualismo doente da América Católica II-33
O paradoxo do personalismo sem direito à verdadeira individualidade II-36
Porque o brasileiro gosta tanto de títulos? II-40
Sou pobre mas eu sou limpinho II-46
O pobrismo e suas nuances II-46
Garra para vencer sem honra II-49
O pobrismo e os cristãos. II-54
Quem está certo o teólogo da libertação, ou o teólogo da prosperidade, ou nenhum dos dois? II-54
Um sem terra chamado Jesus II-59
Casei com branca para purificar a raça… II-61
O macunaíma nazista que há em mim II-61
Existe raça? Meu sobrenome ser enrolado, alemão ou italiano, ou ser o velho da Silva e Silva faz alguma diferença? II-61
Preconceito racial ainda é um problema em nossa visão de nós mesmos? II-62
De como o conceito “raça” hoje em dia está totalmente desacreditado na Biologia II-66
III. DE ONDE VIEMOS? III-70
Dores e sangue da América “latrina” III-71
Ya me voy, ya me voy para Bolivia III-73
Minha avó foi pega à laço III-75
O índio que mora em mim III-75
Frida Kahlo, Tarsila, e Violeta e a nossa foto vestidos de noiva na carteira de Deus III-78
Descobrimento ou conquista? III-84
Os acordos de paz e a escravidão indígena III-90
Sobre problemas aparentemente insolúveis e o índio crucificado no domingo de Páscoa III-94
Todo brasileiro tem um pé na senzala III-98
Nossa herança negra III-98
Dos estereótipos Sargentelizados e de uma possível re-leitura da negritude no Brasil III-99
De como a Whoopi está certa e todos os demais afro-americanos redondamente errados III-99
De como os cristãos são os únicos que poderiam entender o movimento negro mas não fazem nada a respeito III-99
Nosso pai-drasto europeu III-100
Quando eu ganhar na loteria… III-101
A mega-sena milionária e o sonho do “El Dorado” III-101
IV. COMO SERÁ QUE SABEMOS O QUE SABEMOS? IV-105
Por favor (não) jogue papel no vaso IV-106
Cultura, perfis sociais e pecado IV-110
Tristeza nos primórdios das gentes brasileiras IV-115
De como nos vemos como quem acabou de chegar e não nos encontramos ainda em nossa própria terra IV-118
V. PARA ONDE VAMOS? V-119
Eu vou pra Maracangalha e se Amália naoa quiser ir eu vou só V-120
Uirás à procura de Deus V-121
Os protestantes que buscaram respostas V-126
Uirás à procura de uma teologia V-127
Em busca de uma verdadeira redenção cultural V-128

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Dedicatória

Dedico este livro a meu marido que sempre acreditou que eu era capaz de escrever, mesmo quando eu mesma não acreditava.

E também com certeza a todos meus amados colegas da pequena comunidade-família onde tenho morado pelos últimos vinte anos. Eles que , vindos de todo o Brasil, regiões diferentes, famílias diferentes, me inspiram sempre em nosso dia a dia nem sempre fácil, e vivem de maneira que me faz acreditar que é possível mudar o Brasil de vez e para melhor

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Aquarela do Brasil

Aquarela do Brasil
Ary Barroso
Brasil!

Ó… abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Brasil!

Deixa… cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver “essa dona” caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil… Brasil!
Pra mim….

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